Tenho nas minhas mãos um livro, Espaços abertos para umha nova cultura. Guia de centros sociais da Galiza, que, coordenado por Irene Cancelas, vem de publicar A Fenda Editora. Para além de qualquer outra consideração, a obra prova que entre nós algo se move e está a gerar realidades nas que se reúnem de maneira razoavelmente feliz o velho e o novo.
Junto com algúns centros mais que se abrirão nos meses vindeiros, aí estão, para testemunhá-lo, Aguilhoar em Ginzo; Alto Minho e Mádia Leva em Lugo; Arrincadeira em Riba d'Ávia; Artábria no Ferrol; Atreu! na Corunha; Aturujo em Boiro; Baiuca Vermelha, A Casa da Triga e O Fresco em Ponte-Areias; A Casa Encantada, Henriqueta Outeiro e O Pichel em Compostela; A Cova dos Ratos, Faísca e A Revolta em Vigo; A Esmorga em Ourense; A Formiga em Redondela; A Fouce em Bertamiráns; a SDDR Palestina em Burela; A Revira em Ponte Vedra; Roi Soga em Noia e A Tiradoura em Cangas.
Não está de mais --creio-- que intente resumir o que hoje são esses centros sociais, mesmo com o risco de introduzir generalidades se quadra deturpadoras.
Direi, em primeiro lugar, que nesses locais --rara vez estrictamente partidários e com evidente vocação de apertura a outras iniciativas-- adoita se verificar um achegamento de gentes que procedem do independentismo nas suas diferentes fasquias, do mundo libertário, da okupação e, em fim, de movimentos sociais diversos. Sinalarei, em segundo termo, que, como bem lembra o limiar do livro, os centros "são instrumentos sólidos e tangíveis, ferramentas de descolonização activa e focos intransigentes para a defesa do idioma". Nesse caminho, e em terceiro lugar, entre as suas paredes se manifestam, sim, diferentes iniciativas de carácter cultural --vinculadas com a língua, com a música ou com a recuperação de tradições populares--, político e social --como as vencelhadas com o feminismo, o ecologismo e o pacifismo, a luta contra o consumismo, as economias alternativas ou a solidariedade com o Terceiro Mundo--, mas revela-se também o anceio de abrir espaços lúdicos --como o certificam simbolicamente em tantos lugares os matraquilhos-- e o firme propósito de pescudar nas muitas possibilidades que oferece hoje Internet.
Agregarei que, segundo o retrato que desenvolve o livro, e segundo, também, o que é fácil comprovar na realidade, nos centros objecto do nosso interesse há uma presença claramente dominante de gente nova que abraça sempre a fórmula da assembleia e que defende a autonomia e a autogestão frente às tentações da institucionalização. Não parece fora de lugar, aliás, a lembrança de que algúns destes centros estão a agromar no que tantas vezes entendimos que era a Galiza profunda.
Se é lógico soster que o que estamos a relatar desenha um horizonte muito estimulante entre nós, e abre inéditas possibilidades para o futuro, é preciso salientar, também, algumas das eivas que arrastam os centros sociais estudados no livro. A primeira delas é a relação, a miudo pouco fluida, com os lugares --as mais das vezes bairros populares-- nos que os centros radicam; tal vez a prática destes é en muitos casos vanguardista de mais. Em paralelo com o anterior, e em segundo lugar, cumpre sublinhar a débil presença nos centros de gentes que há tempo deixaram atrás a mocidade. Todos os activistas entrevistados no livro concluem, para terminar, que faltam mecanismos de coordenação efectiva entre iniciativas que com certeza ganhariam activos de estabelecerem entre si relações mais profundas.
Ainda que uns mais velhos que outros, ainda que uns com notável sucesso nos lugares em que radicam e outros mais marginais, estamos obrigados a concluir que todos estes centros, cientes de que fica muito caminho por recorrer, estão em processo de maduração. Não só devemos prestar-lhes atenção: bem estaria que decidissemos, com vontade crítica e participativa, entregar-lhes também o nosso apoio.
Com efeito, os novos centros sociais (esses que mencionas, e muitos mais) cumprem um papel fundamental na dinamização cultural e linguística. Acho que têm em comum uma nova visão do in-dependentismo (a in-dependência, no sentido mais frontal) como autonomia pessoal, grupal e portanto social. Mas os centros têm de combater contra muitos atrancos, institucionais por exemplo. E, como dizes, são em geral desconhecidos ou ignorados por aqueles ex-activistas da língua e da cultura "mais velhos" que frequentam já circuítos onde se coze o poder ou para-poder institucional. Além disso, nos centros sociais a presença da visão unitária da língua (o "reintegracionismo") é notável, e, enquanto as elites oficiais e para-institucionais não reconheçam de vez o contributo histórico desta posição ideológica-linguística-política ;-) , os centros sociais e os movimentos de base que os sustêm continuarão a receber esquecimento, cepticismo, e até rechaço.
De alguma maneira, a rede de centros sociais reproduz a situação das associações culturais dos anos 1960-1970s, que concentravam a energia em defesa do galego. E cumprem um papel semelhante em mover adiante a consciência e as práticas linguísticas e a geração de cultura(s).
O apoio a eles, enfim, é uma questão fácil: assistir aos seus actos (os que interessem, claro ;-) ) e aceitar os seus convites a participar. Isto nunca dará um cachinho de página na Sección Galega de EL PAÍS ;-) , mas, afinal, deixará uma sensação mais fresca de estar a contribuir para algo.
Saúde,
-celso
Parabéns, senhor Taibo. Parece que começa a conhecer um pouco a realidade galega, já que fala dela.
Com efeito, os centros sociais EM GALEGO, activos e cheios de juventude, são lugares fundamentais de encontro social. Mas também sofrem desencontros, que diminuem as garantias do cumprimento dos direitos humanos elementares ;-) como o de serem tratados em igualdade de condições, ou não serem discriminados por razão de ideologia, língua, ou o que é mais ridículo, de grafia.
Nunca foi C.Taibo desconhecedor da realidade galega, como é óbvio no seu empenhamento em muitas causas (e cousas) realizadas no pais.
Parabéns ao autor e, é claro, ao labor dos C.S. e as suas actividades a despeito do silencio da imprensa colonizada e colonizadora da Galiza.
É profesor titular de Ciencia Política e da Administración na Universidade Autónoma de Madrid, onde tamén dirixe o programa de estudios rusos. As súas áreas de especialización son transicións á democracia, Unión Soviética, Rusia e Iugoslavia. »