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Concha Rousia

A Lista do Verdugo

17:51 25/02/2008

Há muitas formas de abordar um tema, alguns mais facilmente do que outros, eu sei; e também sei que por vezes podemos escolher o jeito, e mesmo as palavras, que julgamos representam melhor as nossas ideias. Outras vezes, porem, descobrimos que não somos capazes de fazer isso, que não podemos, e que temos que confessar ante os demais, e ante nós próprios, que nossa reacção ante determinadas experiências nos vem dada. Eu explico:

Estes dias, logo de saber o que se está a passar em Vigo e Corunha com os mono-lingües a defender o bilingüismo, cousa que não me acaba de encaixar dentro da cabeça, tentei analisar o que via e o que eu pensava. Mas descobri que isso, que para muitos é apenas uma reacção de senhoritos envalentonados polo Aznarismo, para mim não é tão simples de qualificar. E olha que lhe dei voltas, e mesmo teria gostado de o ver doutro jeito, mas assim é como o sinto... Essas acções galego-fóbicas que estes dias temos que aturar na nossa própria Terra, em mim se espetam directamente duma forma cruenta que não consigo amortecer com palavras. Como me diz um colega meu americano, isto acontece porque essas agressões vão directamente ao mesmo lugar onde ainda ficam sem curar feridas no cerne da minha identidade. E que sempre vai doer, porque a pegada se gravou numa etapa da minha vida na que por razões de idade era muito vulnerável.

Hoje quando os verdugos tiraram finalmente suas máscaras, no teatro de Vigo, e eu vi que eram os mesmos de 1968, quando eu tinha 6 anos, foi como um flash-back, como um recordatório de todas as vezes que suas facas se vieram espetar nesse mesmo lugar. E doe do mesmo jeito que doera aquele dia, quando começava a escola, e as lágrimas me faziam ver, ao longe, os penedos molhados como se chovesse, mas não chovia. Quando se recebem ataques deste tipo, a resposta que o organismo dá, porque a tem aprendida desde muito cedo, é uma resposta de medo. Devo confessar que me dão medo.

Muito medo. Eu, que por minha profissão estou acostumada a trabalhar com gente que sofreu violência, tento entender a minha reacção, e acho que a entendo, mas não entendo a sociedade na que vivo. Eu sei que poderia deixar de sentir medo se os verdugos pagassem polo que fizeram, ou mesmo só com que eu tivesse certeza de que o não iam fazer mais; ora, sei que não é assim, depois de quase quarenta anos a história se repete, como muitas vezes se leva repetido para os que sofremos violência lingüística na nossa própria terra.

Hoje, mentes lia a Viktor Frankl, “Man in search of meaning” entendi porque eu ao ver esses ataques dos gelego-fóbicos contra nós, me alegrei de não morar em nenhuma dessas cidades que antes mencionei...

“...quando vinham com falsidade –diz Viktor Frankl- a dizer que a alguns nos iam trasladar a outro campo de concentração, nós bem sabíamos que era a câmara de gás que nos esperava, e nos alegrávamos de que os nossos números (porque isso e o que éramos) não estivessem na lista de números a levar; mesmo sabendo que um dia, se os exterminadores não eram detidos, viriam também com os nossos números na lista para nos carregar no comboio da morte...” Hoje na lista dos números só aparece Vigo e Corunha e eu, essa meninha de seis anos que hoje me aconselha, se alegra de que os meus números ainda não fiquem na lista do verdugo...

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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