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Ernesto Vázquez Souza

“O medo é livre”: Commedia del’arte no Grande Circo Feijoo

10:01 12/11/2009

"Ce soir, occasion unique! Grand spectacle! Représentation extraordinaire! les illustres comédiens de la troupe déambulatoire, dirigée par le sieur Hérode, qui ont eu l'honneur de jouer devant des têtes couronnées et des princes du sang, se trouvant de passage dans ce pays, donneront pour cette fois seulement, car ils sont attendus à Paris, où la cour les désire, une pièce merveilleusement amusante et comique intitulée “Les rodomontades du capitaine Fracasse!” avec costumes neufs, jeux de scène inédits et bastonnades réglées, les plus divertissantes du monde. A la fin du spectacle, mademoiselle Sérafine dansera la morisque, augmentée de passe-pieds, tordions et cabrioles au dernier goût du jour, en s'accompagnant du tambour de basque dont elle joue mieux qu'aucune gitana d'Espagne. Ce sera très plaisant à voir. La représentation aura lieu dans la grange de maître Bellombre, disposée à cet effet et abondamment pourvue de banquettes et luminaires. Travaillant plutôt pour la gloire que pour le profit, nous accepterons non seulement l'argent, mais encore les denrées et provisions de bouche en faveur de ceux qui n'auraient pas de monnaie. Qu'on se le dise!"Gautier, Le capitaine Fracasse, 1863

Todos os anos em que, antes destes anos, o PP governara na Galiza sempre deixara claro que a questão “língua” não era importante; que não havia nenhum conflito lingüístico e que a reivindicação do galego, o galego como idioma da sociedade a todo uso, era uma reclamação ridícula de quatro gatos tolos, intelectuais de barato compráveis ou aborrecidos profetas do não em tempos livres.

Todos os anos, antes do bipartido, que o PP estava no poder, manifestou aquela máxima galega de quem manda, manda e tem nada que explicar, nem menos justificar, do seu jeito de mandar e maneiras de fazer. Simplificado naquele: “si no eres del PP jódete” que tão grosseiramente musicou papai Baltar.

E entanto repetiam personagens que entravam céleres na cena, qual em Commedia dell’arte, que a língua não era urgente, que outras cousas de gestão e infra-estruturas eram, as elites galegas senhoreavam a Galiza como se desde a origem dos tempos nunca outra cousa fizeram.

Como se esse a mandar fosse direito divino outorgado anterior e superior ao dos Reis de Castela, viviam e vivem atentos apenas aos seus jogos de poder locais e em pirâmide o baralho desde a paróquia e a comarca até essa parte da Galiza onde moram os galegos espilidos que se chama Madrid.

Governam a tempo completo e guerreiam entre eles por questões clientelares e interferências clânicas. Despóticos, arbitrários e absurdos o seu poder baseia-se na confiança dos seus clientes e na fantasia de eles serem fundamentais na intermediação da vida social e econômica, no funcionamento a nível dos particulares do Estado.

E não admitem questionamento. A brutalidade da repressão a qualquer desafio em ciclos desde os mais remotos tempos celto-romanos até o genocídio da Guerra civil, passando pelas funestas restaurações bourbônicas, ou a que seguiu aos levantamentos Irmandinhos está encravada, como memória de ferrete na pele do boi, na mente dos galegos.

Por isso chegava com os poderosos levantarem a mão para a gente parar. Chegava com mudar o tom da conversa, passar à voz de mando (em castelão já era cousa de muito nabo), para fazerem a gente calar. E os que não paravam e não calavam, sabiam que tinham um olho neles posto e nem farangulha no quinhão. Mais lhes convinha emigrarem.

Quando eles governavam seguros, o galego, a língua em que falava a gente, não era importante. As vozes no parlamento, a coalizão dos partidos de esquerda, não era nada. A cultura era de rir. As iniciativas sociais, a pequena imprensa ou as editoras não importavam.

Mas aquele negro chapapote chegou, a gente perguntou, depois falou, mais tarde foi votar e uma vez botados nunca mais foi o mesmo.

Agora tendes medo. Sabeis que já não vos chega nem pular do rabo nem termar do adival... Tendes medo. Tanto medo que andais a mostrar a aguilhada e o pau com que malhavam os vossos antergos.

Tendes medo. Tudo, os recortes, os artigos escândalos de La Voz (do seu dono) como na Restauração, a imprensa escrita em papiro a celebrar e a aterrorizar, o anúncio de decretinho de educação, as Galinhas azuis, o deixar certos comentários pré-constitucionais impunes, o dizer contra a memória histórica e se abster, o do teatro e discursos com a RAG e o Consello da Cultura de bufões, o de não usardes o galego – que vós inventastes – no Parlamento, o de São Simão.

Comportamento exagerado, teatral com sabor de esperpento. Não era que mandava quem mandava? Não era que o galego não importava?

Logo, porque ameaçar com bater onde mais dói? Já não vos chega terdes a chave do caixão do pão que ides contra o galego? Apelais aos piores medos nossos: ao franquismo de vozes obscuras e morte que temos incutido na alma fusquenlha?

Tentais demonstrar que sois os de antes? A direita de toda a vida? Os caciques, os franquistas e os sempre vencedores senhores das Torres?

Mas não sois. Já não enganais. Perdestes o poder uma vez e haveis de voltar a perdê-lo na seguinte. O bipartido assustou-vos bem. E este “Capitão Fracasse” de Mata-mouros do Circo Feijó não é mais que aparato de comédia em províncias para ir chegando a Paris.

Nós também aprendemos: o galego não é importante.

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(A Crunha, 1970) Da Academia Galega da Língua portuguesa, Doutor em Filologia Hispânica (secção de Galego Português), especialista em história do impresso galego na etapa contemporânea. Tem focado os seus contributos arredor do movimento das Irmandades da Fala, a figura de Angel Casal e o mundo do livro galego. Trabalha como bibliotecário na Universidade de Valladolid.
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