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Concha Rousia

Monumento ao Verdugo

11:01 15/06/2010

Não, não me estou a referir à estátua de Franco na praça do cavalo de Ferrol, nem a de Saddam Hussein, aquela que vimos nas televisões como era derrubada lá em Bagdad por uma multitude azurrada polos soldados do exército estado-unidense. Não, aqui falo de um monumento que muitas vezes pode até ser invisível, um monumento que, igual que o povo sofria a presença de Franco na praça central de Ferrol, a vítima carrega em silêncio...

O monumento vai-se construindo lentamente, por cada golpe uma cicatriz, por cada injustiça uma amolgadela, até que o monumento alcança tais dimensões que a vítima não pode mais com ele... Chegados a este ponto é o momento de mostrar mais e mais que se precisa ajuda, talvez se leva pedido de muitas formas, durante muito tempo, mas sem conseguir ser atendida. A vítima sofre a carga do monumento, por vezes desejaria desfazer-se de ele, mas... Nem sabe como, nem acha que pode; a vítima quer lembrar, a vítima quer que se saiba da injustiça, a vítima mostra suas cicatrizes, a vítima deixa de estar contente, a vítima não gosta mais da vida, nem de si, a vítima está só, a vítima sente-se incompreendida, a vítima é incompreendida, porque o seu monumento suporta-o apenas ela, e quando alguém chegar a ter conhecimento da sua carga, ela é julgada como inadequada, torpe, estúpida, ignorante, por não se desfazer das cicatrizes... As cicatrizes são desagradáveis, elas fazem lembrar a perda, a gente não quer vê-las, a gente enruga o rosto ao vê-las, sejam elas físicas ou não, as cicatrizes são consideradas feias, e daí nasce a palavra: Feiismo (o que eu quero descrever)

O feiismo é um buraco no peito, é incerteza de nunca saber donde vem o medo. O feiismo é metáfora de intestinos. É querer dizer como andamos por dentro, e é também querer negar dizer. É vómito inevitável do nojo que nos trava, que nos peja os pés. É assanhamento que demonstra que há qualquer cousa que não nos permite medrar. É pranto de lágrimas sólidas. É arrancar-se a pele para calmar a invisível dor; é automutilação que obriga a não esquecer. É monumento ao verdugo. É reconhecer a derrota de não lograr Ser, mas é também amostra de não se render. O feiismo é denúncia, é desconformidade, é desarmonia provocada, é subversão que bate nos olhos, é caspela de ferida interna que supura. O feiismo é sintoma de mal interno, oculto, que clama por remédio, são as ervas arrancadas na beira da corrente que te arrasta... são as unhas enegrecidas de rabunhar a terra na procura de auxílio. O feiismo não é enfermidade, é mensageiro, é anúncio de não poder fechar em falso as feridas, é vómito da toxicidade engolida, incompatível com o organismo, o feiismo é pesadelo num sonho real que não acaba, é grito do desespero...

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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