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Concha Rousia

Dos Açores à Quintana

17:15 28/05/2008

Este passado domingo dezoito cumpria-se uma semana de minha despedida dos Açores, onde passara quatro dias de normalidade linguística durante os Encontros Açorianos da Lusofonia. Quando chegara a Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, senti que estava num pais a escala humana, até me lembrou uma Galiza que já quase tinha esquecida; uma Galiza que eu senti acordar de novo nesse momento, uma Galiza que queria ser ilha, para poder ir lá para o meio do oceano onde deixar de se sentir atada.

Bom, nesses encontros nos que se falara de diversos temas que afectam à língua, eu assisti como representante da pró Academia, e falei da perda dos espaços colectivos que havia na cultura tradicional e de como essa perda produz um grande mal-estar nas pessoas que continuam a viver no meio rural, e produz também, sobretudo, um abandono desse mundo polo mundo urbano, e em definitivo, leva a uma perda de estima pola cultura própria e tudo o que com ela se associa, nomeadamente a língua. E por se alguma pessoa duvidar, nos Açores eu falei ao meu jeito natural da Límia, tal como falo com a minha irmã; embora eu me tenha contagiado um nadinha do seseio da comarca da Amaia, onde agora moro.

Os conteúdos destes encontros foram mesmo muito diversos; desde o acordo ortográfico, com as intervenções dos académicos Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, até a saudade na literatura escrita na diáspora. Não deixa de ser interessante a quantidade de gente que começamos a escrever nossas primeiras linhas de criação quando nos achamos longe da nossa terra. Como dissera um escritor açoriano “sair da ilha é a melhor maneira de permanecer nela”. Mas continuando com os encontros, uma das teses que a mim mais me interessou foi a de Deolinda Adão, da Universidade de California, Berkeley; ela afirma que ninguém é capaz de escrever sobre aquilo que não pode conceber. A professora de Berkeley aplicava sua hipótese às questões de género, e a como não é possível encontrar protagonistas femininas, tanto em obras escritas por homens como por mulheres, que sejam pessoas normais, o que é indicativo de que, por mais que queiramos, não conseguimos ver a mulher com roles de normalidade na nossa sociedade.

A mim, que sempre me interessaram as teorias narrativas, e sobretudo sua aplicação no exercício da minha profissão como psicoterapeuta, e como os discursos dominantes através dos que narramos as nossas vidas constringem e impossibilitam toda mudança, me serviu muito bem conhecer a aplicação desta hipótese ao mundo da linguística e a criação. Até porque há tempo eu me fiz consciente de que o que mais nos prende e dificulta o nosso andar como país normal é a narrativa na que nos contamos, na que nos dizemos quem somos, e na que nos não dizemos quem somos.

Foi na praça da Quintana, no final da multitudinária manifestação pola língua, falando com amigos, entre eles Camilo Nogueira, que conversamos sobre as possíveis travadoiras que temos os galegos e galegas à hora de reivindicar a nossa língua. Travas que sim nos permitem reclamar certos falantes de Estremadura como nossos, ou também certos falantes de León ou Asturies, como falantes nossos, mas que nos impede reclamar os de Trás-os-Montes ou os de Rio de Janeiro como falantes nossos. No fundo, como bem diria a professora Berkeley, trata-se de reconhecer nossa incapacidade para ver aquilo que não podemos conceber; o que significa que não somos capazes de ver como galego nada que não seja também espanhol... repito: não somos capazes de conceber como galego nada que não seja também espanhol...

Isto explica também que sejamos capazes de aceitarmos a ortografia do espanhol como galega e vejamos a nossa ortografia histórica como estrangeira. Há pessoas que vêem na adopção da ortografia que usam Portugal ou o Brasil pola Galiza um elemento de estrangeirização, sem darem porque estão a aplicar ao campo linguístico um conceito territorial; ora, ao galego não lhe pode ser estrangeiro o que lhe é próprio. Ainda bem que como dizia Castelao: “As palavras, como os pássaros, voam sobre as fronteiras políticas”

Ressumindo, lá no fundo fica nossa deformada percepção que nos impede concebermo-nos fora do Estado, e portanto tudo que é nosso tem que morrer, acabar, finalizar... lá onde as fronteiras do estado espanhol marcam o linde. Quando sejamos capazes de ver isto talvez possamos deixar de ser pássaros engaiolados para ser pássaros livres a voar.

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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