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Concha Rousia

Conversas com Ramom Muntxaraz; o abraço da chuva

17:45 09/07/2008

Conheci Ramom pessoalmente há apenas uns meses por motivos relacionados com a nossa profissão de psicoterapeutas. Antes desse dia eu tinha ouvido falar dele a colegas e amigos, e tinha também lido alguns de seus textos.

Aquela foi a única vez na que eu vi Ramom Muntxaraz com vida. Compreendi que seguia a ser o lutador do que tinha ouvido falar, que hoje livrava várias batalhas, alguma delas só visível na ausência de cabelo e no reconhecível cansaço físico, e que ele seguia a não se render. Admirei seu espirito combativo. Logo desse dia falamos mais uma vez por telefone e dias depois já estávamos chorando a sua morte...

Choramos a morte de um homem que entendeu e quis mostrar ao mundo que de pouco serve liberar uma mente atormentada se a pessoa vive submetida, se a pessoa vive imersa numa cultura obrigada a seguir, consciente ou inconscientemente, os ditados de outra, e de um sistema opressor. Assim que a luta pola liberação nacional da Galiza é, para além de uma luta pola justiça e dignidade humanas, uma luta pola saúde mental.

As palavras que eu podia dedicar a um camarada, a um homem que dedicou sua vida a ajudar a outros a encontrar o caminho da libertação, um homem que deu sua energia à luta pola Galiza e a sua liberação, são tantas que eu apenas as posso tentar resumir numa: admiração, verdadeira e profunda admiração...

Por vezes eu interrogo-me acerca de como pessoas como Ramom Muntxaraz, que vêm por primeira vez à Galiza quando já são adultos, podem chegar a senti-la como a sinto eu, como o ser vivo que ela é, mentes que muitos filhos desta Terra moram acima dela desde que nascem e não chegam nunca a senti-la. Confesso que é este um mistério que tenho para resolver e que eu formulo pensando que não é o mesmo “não ser galego” que “ser não galego” (ou mesmo “teimar em não o ser”) mas não vou tentar aqui resolver o enigma; deixo é apenas o fio do que estou certa Ramom Muntxaraz me ajudaria a entender analisando os mecanismos de funcionamento da mente da pessoa submetida, colonizada, por um estado poderoso e opressor... Hoje nascem em mim muitas perguntas que eu desejaria poder-lhe fazer...

A estrela de cravos vermelhos...
...Mas hoje meus olhos encontram apenas a estrela de cravos vermelhos que marca o ponto da Terra onde o corpo de Ramom vai ficar para a eternidade sendo parte da Galiza... “Terra que ele tanto amou”... como bem disse o mais velho de seus filhos o dia do enterro falando na língua de seu pai, na língua da nossa Terra... e a Terra falou também, falou abraçando a todos com os braços da chuva...

Eu estou certa de que aquela chuva foi uma manifestação do pranto da Terra, assim se entendia; como também se entendia, ante o muito que o amavam sua família e seus amigos, que Ramom Muntxaraz não morrera realmente... não morrera porque sua luita segue viva em nós, e ele sabia isso. Eis a forma magistral de enganar a morte, não permitindo-lhe marcar o final; e não o marcou porque Ramom é parte do futuro que iremos construindo, porque ele é parte desses planos, e ele sabia-o, eu vi que ele o sabia, e isso permitiu-lhe ir além da sua própria morte, e portanto não deixou que fosse ela que pusesse o final...

Foi um privilégio que por acaso eu tive conhecer pessoalmente Ramom Muntxaraz, assim como também o foi conhecer sua família... pessoas infinitamente ternas às que desde aqui envio o mais sinceiro de meus abraços... A Maruxinha e Pilar, a Montxo e Iñaki, a Manoli e Elena... e a todas e todos os que se queiram incluir no grupo de seus seres queridos...

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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