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José Luis Forneiro

Sobre a leitura popular na Galiza: O jornal gratuito Delunsavenres

18:00 05/11/2008

Já hai mais de um ano que em diversos pontos das sete cidades galegas está a ser distribuído o jornal gratuito Delunsavenres com umha tirage de 50.000 exemplares, segundo se informa na sua capa.

Neste tempo temos podido comprovar como em Santiago de Compostela todo o tipo de gente colhe esta publicaçom nos lugares onde se encontra à disposiçom do público, preferindo-o, mesmo, aos jornais em castelhano. Deste jeito, pessoas que habitualmente nom costumam ler, e ainda menos, em galego estám a familiarizar-se com a língua do país, do mesmo modo que em Madrid imigrantes romenos, marroquinos ou equatorianos se servem dos jornais gratuitos para aprender ou descobrir o espanhol de Espanha. Estamos, portanto, perante um fenómeno de aprendizado dumha língua mediante textos acessíveis a toda a sociedade similar ao que se produzia em Época Moderna com os folhetos de cordel, pois naquela altura nom poucas pessoas aprendêrom a ler através deste tipo de publicaçons, como foi o caso de Santa Teresa de Jesus.

    Em minha opiniom, o êxito de Delunsavenres é devido à sua impecável maquetaçom, ao tratamento de todo o género de temas (incluídos o horóscopo e as notícias relativas aos famosos), e ao, em geral, correcto e adequado uso da língua galega para umha publicaçom das suas características, isto é, destinada para todos os públicos. Lembremos que desde o século XVI, umha vez que se produziu a total substituiçom do galego polo castelhano no foro dos ámbitos do poder político e cultural, os únicos textos escritos em língua autóctone a que tivérom acesso as classes populares galegas fôrom aqueles relacionados com o mundo rural e a sátira. A recuperaçom do galego como língua de literatura “culta”  ou de autor que se produziu no século XIX apenas tem tido repercussons nos ámbitos populares galegos, se exceptuarmos, por exemplo, alguns poemas de Rosalia e Curros ou as Memorias dun Neno Labrego de Neira Vilas. A profunda interiorizaçom do castelhano como língua de cultura e a debilidade do que hoje se denomina o sistema literário galego, que dificilmente podia fazer chegar os seus produtos culturais aos camponeses e marinheiros do país, explicam a falta da adesom destes sectores da populaçom às propostas literárias do galeguismo cultural. Por outro lado, a diferente sensibilidade literária e política das classes populares, e o facto de boa parte das obras da literatura galega “culta” contemporánea apresentarem umha língua artificiosa ou incorrecta som factores que também justifica esta indiferença. Pensemos que na actualidade, até o aparecimento de Delunsavenres, as classes populares galegas nom frequentavam, precisamente, as páginas d´A Nosa Terra e de Tempos Novos, mas antes as d´O Mintireiro Verdadeiro.ou O Gaiteiro de Lugo.

Bem é verdade que nos últimos 25 anos a sociedade galega no seu conjunto entrou em contacto com os novos usos da língua autóctone como idioma urbano, oficial e de cultura: desde os letreiros oficiais ao ensino, desde algumhas notícias nos jornais locais à propaganda eleitoral, desde os programas da Radio e da Televisom galega aos livros em galego, bem presentes nas feiras do livro na Galiza. Porém, é sabido que os resultados destes esforços normalizadores tenhem sido bastante decepcionantes. Conseguiu-se que a língua autóctona tenha perdido entre amplos sectores da populaçom as conotaçons negativas que a acompanhavam, mas, além disto, a maior parte da sociedade galega ficou indiferente aos novos produtos culturais gerados pola nova administraçom autonómica e polo nacionalismo a quem se lhe permitiu ocupar quase todo o espaço do ámbito da cultura. Assi, só alguns fenómenos como a literatura infanto-juvenil, programas da TVG como o Xabarín Club ou os apresentados por dous grandes comunicadores como Gayoso e Piñeiro, parecem ter sido acompanhados por um número importante de cidadaos galegos. No entanto, se repararmos todos estes fenómenos estám associados, por um lado, à oralidade e, por outro, à infáncia e à adolescência, etapas associadas ao jogo e à sentimentalidade, isto é, com o que “sempre” se tem identificado o galego.

É mais que provável que a repercussom de Delunsavenres no uso e consideraçom do galego seja mínima devido à forte castelhanizaçom lingüística da Galiza actual, mas, bem os seus editores, bem umha  entidade pública, deveriam estudar a sua recepçom geográfica (maior ou menor aceitaçom em cada cidade, presença no rural) e individual (mudança nas atitudes para com o galego), pois os resultados deste análise poderiam contribuir para o melhor conhecimento dos usos do galego na Galiza actual e, sobretodo, porque se fossem positivos para a língua galega serviriam para que aqueles que se consideram os seus principais defensores reparem, por fim (depois de mais de 100 anos), que só salvarám a língua se se dirigirem a toda a sociedad galega  e nom só aos empenhados na defesa do idioma e da cultura do país. Algúem afirmou nestes dias que Obama só poderia conseguir o apoio maioritário da sociedade norte-americana sempre que nom se apresentasse como o candidato da populaçom, como se diz agora, afro-americana. Pois isso.

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Forneiro

José Luís Forneiro é professor titular de Língua Portuguesa na USC e é autor dos livros El romancero tradicional de Galicia: una poesía entre dos lenguas (2000) e Allá em riba un rey tinha una filha. Galego e castelhano no romanceiro da Galiza (2004). Forma parte do proxecto Ronsel, paa a posta en valor do Patrimonio Inmaterial Galego. »



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