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Concha Rousia

Carta a Touriño

15:05 20/12/2008

Senhor Touriño,

Permita-me em primeiro lugar pedir desculpas à instituição que você preside, porque embora esta seja uma carta pessoal, não deixa de estar dirigida à pessoa que no momento presente ocupa o cargo de Presidente da Junta da Galiza, e eu respeito muito as instituições do meu país; mesmo que estas estejam assanhadas por ter que existir à sombra do Todo-Poderoso Estado Español. Na Galiza real, todos sabemos que à sombra doutro ninguém medra, é por isso que os carvalhos são plantados em touças e não nas estremas das leiras de cultivo; especialmente as das patacas, das que você também falou na entrevista que lhe fizeram num jornal que não quero nomear... embora não soubesse em que mês se sementavam, a pesar de ter sido matéria da sua tese de doutoramento.

Mas olhe a culpa também foi do entrevistador por ignorar ele próprio que nessa Galiza real, da que eu estou a falar, há quase tantos micro-climas como variantes linguísticas, e por conseguinte você podia ter saído do sarilho dizendo que a altura de semear as patacas depende do lugar... não é o mesmo a Límia que Coristanco, por nomear dous lugares bem conhecidos pola fama das suas patacas, nem é o mesmo a Amaia que a minha comarca da Raia... já as do vale da Amaia quase têm o caravel quando se botam as da Raia; que já agora lhe informo também que as patacas não se sementam, sementar sementa-se o pão, que por certo às vezes se sementa ao sacho antes de apanhar as patacas e depois dá muito trabalho para não atrapalhar os regos do centeio nascido, também se sementam os nabos logo de que se passe o dia de Santiago, as couvelhas, o milho... etc mas as patacas não, as patacas botam-se, plantam-se, ou põem-se, dependendo da zona e da variante linguistica, usaremos um o outro termo.

Você foi muito correcto admitindo que não o sabia, e mesmo confessando que o devia saber, mesmo que você não se dedica á agricultura, mas você não fez alarde aqui da sua ignorância; ora bem, há outra cousa na que você, talvez sem ser demasiado consciente, fez alarde de seu não saber, é isso sim que lho queria contar, porque isso me parece inadmissível para qualquer pessoa. 

Mas antes de mais devo dizer que você começara a entrevista mesmo com jeito, como quando disse:
Quiero continuar el cambio con más fuerza para que Galicia no quede varada ni retroceda, para construir el proyecto del país que sueño...

Esta frase até me pareceu bonita, mesmo que ficasse algo confusa e não soube bem se o que sonhava você era o projecto ou era o país; porque o certo é que para o projecto é melhor ficar um acordado, e bem acordado, e o país não precisa ser sonhado, só precisa ser reconhecido: Galiza. Mas era bonita a frase, mesmo que a tenha dito você em castelhano e com isso tenha contradito o que você mesmo afirma noutro lugar da entrevista, quando recalca o seu compromisso de sempre se exprimir em público na língua do país: o galego; pois a entrevista era pública, não sim?

Mas não é esse o motivo polo que eu lhe queria tirar a você polas orelhas, não, isso foi só para aproveitar a carta, já que a escrevo... Verá, o que a mim, como mulher, como democrata que cresceu numa pequena comunidade rural que se autogovernava em assembleia, e como profissional que trabalha a diário pola igualdade entre géneros, o que me magoou foi a sua resposta a uma pergunta que lhe faz o jornalista, eu explico:

Hace cuanto que no se cuelga el delantal para freir um huevo? (que já agora devia ter dito dous, porque todo o mundo é sabido que os “huevos” gostam de ir por pares) –perguntou-lhe.

E você responde:
Mi mujer dice que mi tope en la cocina es el de freir um huevo.

E olhe uma cousa, o contido do que diz a sua esposa, a quem não conheço e não quero faltar ao respeito, nem importa em demasia, embora seja informativo. Não, o que aqui é relevante é o facto de que você a nomeia quando se fala dos labores domésticos como se isso fosse o departamento dela, ela a autoridade da cozinha... Você não a nomeou ao falar dos eólicos, ou da A-9, ou de nenhuma outra cousa, você a nomeou ao falar dos labores domésticos. Eu acho isto algo grave, grave porque ademais você alardeia de não se saber defender na cozinha num tempo em as mulheres tanto temos que lutar pola igualdade de roles, tanto no lar como fora dele.

Se você tivesse respondido por exemplo:
Eu não me entendo na cozinha, e tenho um criado, ou uma chacha ou chica, ou um mordomo... etc, que me serve...
Nesse caso eu  pensaria que o seu socialismo coxeava; mas se a quem alude você é à sua esposa o que coxeia é a sua ideia de igualdade e de justiça de género.

Verá, as mulheres não queremos ser iguais aos homens, nós queremos é não ser desiguais, e quando alguém tenta vincular-nos com os roles que tradicionalmente foram ocupados polas nossas antepassadas nos está a fazer desiguais dos homens; e isso, senhor Touriño, quando há apenas duas semanas, celebrávamos o dia 25 de Novembro, data pola que estou certa você sente respeito, como sei que repudia você a violência de género, faz este seu comentário ainda mais desafortunado.

Porque verá, na base experiencial da maioria dos homens que usam violência contra as mulheres, muito a pesar do que alguns queiram pensar, não está tanto o eles ter sido agredidos na infância, nem ter sido testemunha de violência; hoje sabemos que o que sim está na base experiencial da maioria destes homens que usam a violência contra as suas companheiras, é ter crescido vendo como as mulheres ocupam roles de menor poder que os homens, o que as coloca em situação de desigualdade e injustiça sociais. É esta expectativa de roles que o homem apreende na infância, e que certamente colocam a mulher nos roles de menos poder, o que leva a estes homens a querer exigir das suas companheiras o que eles acha o correcto, e que muitas vezes a sociedade lhe reafirma; isto é uma lacra que as mulheres temos que padecer a diário.

Tomei a decisão de lhe escrever porque sei que a sua intenção não era lançar à sociedade, ao povo, cuja instituição máxima você preside, uma ideia de desigualdade e de injustiça entre os homens e as mulheres. Foi por isso que eu decidi enviar-lhe esta carta com o desejo de que você a leia e, se o acha apropriado, se desculpe ante as mulheres, e outras pessoas, que foram ofendidas.

Sem mais, despido-me de você com um saúdo cordial.

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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