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José Luis Forneiro

Literatura impressa, literatura digital...e a literatura oral?

18:10 01/04/2009

Preocupa, nos últimos tempos, o futuro da literatura, fundamentalmente a leitura como actividade e a sobrevivência do livro impresso como objecto. Assi, alguns consideram que o mundo actual é incompatível com a cultura livresca em que se alicerça o saber de Ocidente desde a Idade Moderna, no entanto, outras vozes, como a do ex-reitor da Universidade de Santiago de Compostela, Dario Villanueva, som mais optimistas, uma vez que “os livros electrónicos ou portalivros” parecem garantir a sobrevivência do livro “tradicional” num outro suporte, além do facto de nunca se ter lido e escrito tanto como nos nossos dias. Nom faltam razons a ambas as perspectivas, pois, se bem quantitativamente a produçom escrita e a leitura tenhem crescido enormemente nas últimas décadas, qualitativamente a cultura “culta” tem piorado no mesmo período, já que, em geral, as camadas supostamente mais ilustradas lem menos e pior. Hoje a reflexom que propiciava a leitura individual e silenciosa do livro impresso está a ser substituída, em boa medida, por umha cultura mais dispersa e superficial transmitida polos meios audio-visuais e digitais

Na maioria destas análises sobre as interrelaçons das tecnologias audio-visuais e electrónicas com a literatura impressa parece como se esta se encontrasse perante novas realidades pola primeira vez na sua história, quando muitos destes fenómenos considerados tam modernos som bem conhecidos junto dos historiadores da leitura e dos estudiosos das literaturas populares.

Até o aparecimento do livro no século XV a literatura era transmitida por via manuscrita ou oral e desde logo estas manifestaçons literárias tradicionais passárom para o papel impresso, mas este facto nom significou, nem muito menos, que a literatura impressa substituísse totalmente às formas precedentes. As três coexistírom, em maior ou menor medida, desde aquela altura dependendo do momento histórico e da classe social. Assi, a literatura manuscrita gozou de boa saúde durante a Época Moderna entre os ambientes letrados, quanto à literatura oral, inerente ao ser humano como ser que fala, a sociedade contemporánea diferenciou o folclore urbano do folclore rural, que conservou géneros (como a poesia e o conto tradicionais) compartidos até o século XVIII por todas as classes sociais. Nas relaçons entre as literaturas oral, manuscrita e impressa podemos comprovar como os novos fenómenos nom o som tanto. Agora o livro electrónico imita o formato do livro impresso, da mesma maneira que este antes herdara as capas e outras características do livro manuscrito. Os intercâmbios entre a produçom impressa e os meios electrónicos, como os livros que passam a e-books ou os romances ou blogs publicados na internet que depois som impressos, tampouco som realidades tam novidosas, pois nom só alguns textos orais e manuscritos mudárom de via de transmissom a partir do século XV. Muita produçom impressa foi transmitida a partir dessa época de maneira oral ou manuscrita (lembremos a carestía do livro até há poucas décadas), e, por outro lado, conservárom-se em versons manuscritas ou impressas composiçons da tradiçom oral, tradiçom que também acolheu textos manuscritos e que nos nossos dias está a receber novos textos transmitidos pola internet como som as lendas urbanas.

A imprensa iniciou um processo em que os textos literários escritos fôrom perdendo progressivamente a abertura no nível da expressom, ficando só a abertura no nível do conteúdo, isto é, na interpretaçom. Assi, a dupla abertura dos textos só se mantivo na literatura de transmissom oral e como esta desde a Ilustraçom perdeu todo o interesse entre os ambientes letrados (salvo raras excepçons), a literatura ficou só identificada com os textos impressos, caracterizados pola sua fixidez e por ser expressom da personalidade individual dum autor. Neste estado de cousas, hai uns meses o escritor galego em castelhano Agustín Fernández Mallo considerava a literatura fanfic, que permite que os leitores acabem ou recriem na internet as suas narrativas preferidas (Harry Potter, por exemplo), como umha clara amostra de pós-modernismo; porém, nom hai nada mais velho e, ao tempo, mais actual que esta dupla abertura, tam praticada polos camponeses nos textos literários que tenhem transmitido durante séculos até os nossos dias. Nom surprende que o último autor de moda nom conheça a realidade da literatura oral, erroneamente associada a tempos afastados e ao mundo camponês, mas parece mais grave o seu quase total desconhecimento nos ámbitos científico e criativo. Se a lingüística moderna nasceu quando atendeu antes à língua oral que à língua escrita, fica fora de toda a lógica que a literatura oral, que, ademais, tem predominado durante toda a história da humanidade, seja totalmente ignorada, quando nom desprezada. Sirva como amostra deste desconhecimento o facto de que num recente debate sobre a existência da literatura universal entre escritores, críticos e professores universitários num jornal madrileno, ninguém se lembrasse da universalidade da literatura oral, quando a literatura comparada começou com a análise de composiçons orais.

Na Galiza dos últimos anos a produçom literária impressa ou digital tem recebido a atençom, e mesmo o mimo, dos diversos ámbitos do que se costuma denominar “o sistema literário”, em troca, a literatura oral continua no esquecimento do costume. No meu parecer, a literatura galega só será plenamente moderna, que nom actual em termos de Juan Goytisolo, quando junte as manifestaçons orais e populares aos textos literários transmitidos através dos meios impressos e electrónicos, para isso será preciso tanto a atençom dos escritores e do mundo universitário, quanto os investimentos das instituiçons públicas e privadas, pois a complexidade deste tipo de literatura exige notáveis esforços materiais e intelectuais. Deste modo, poderá começar a ser ultrapassado o amadorismo que costuma estorvar os estudos deste tipo de literatura, amadorismo que nos últimos tempos viu-se acrescentado pola presença de certos antropólogos que disfarçam o seu total desconhecimento de autosuficiência académica, em palavras de José Manuel Pedrosa, umha das maiores autoridades contemporáneas no saber literário tradicional hispánico.

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Forneiro

José Luís Forneiro é professor titular de Língua Portuguesa na USC e é autor dos livros El romancero tradicional de Galicia: una poesía entre dos lenguas (2000) e Allá em riba un rey tinha una filha. Galego e castelhano no romanceiro da Galiza (2004). Forma parte do proxecto Ronsel, paa a posta en valor do Patrimonio Inmaterial Galego. »



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