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Concha Rousia

Ante a violência, tolerância zero

09:00 06/06/2009

Esta frase que se entende muito bem quando tratamos as questões de género, quando falamos na violência que o homem tem vindo exercendo historicamente sobre a mulher, não se entende tão bem quando falamos de outros tipos de violência. Esta frase não se compreende ainda assim quando falamos de violência linguística, violência que muitos povos vimos sofrendo também historicamente. E não se entende assim porque quem impõe a narrativa linguística, quem matiza as nossas concepções e mesmo percepções, do que é justo e do que é não justo em termos linguísticos, assim  quer que seja.

Comecemos por clarificar que 'poder' e 'conhecimento' são dous conceitos que vão sempre unidos. Não podemos falar de um sem afectar o outro e vice-versa. Portanto se ao poder, e nomeadamente as instituições que fazem que se cumpra, lhe interessa num momento determinado definir algo de uma determinada forma, e construir assim uma 'verdade' simplesmente o faz, e depois usa o poder para o impor... mesmo parecendo que se impõe desde a razão e a justiça... (imaginemos aqui uma voz em off, tipo No-do...) “...porque és un derecho constitucional de todos los españoles... tra-pa-la-trá...” podemos pôr ai o que quisermos, porque a frase vai santificada desde o seu arranque.

Mas as leis, mesmo parecendo linhas ditadas polos deuses aos humanos, são apenas isso, leis, são mandados que estabeleceu o poder; e bem aguardo que a gente não confunda poder e justiça, porque estes dous conceitos a metade do tempo, por não dizer todo, se acham em direcções opostas. Portanto é o poder que impõe uma determinada norma e é também o poder que se encarrega de que pareça a única possível e mesmo boa, e depois se nos convence de que é o justo e ‘natural’... A esta altura do texto eu pergunto-me: O que há de natural em que a uma pessoa que mora e trabalha na Galiza se lhe exija que fale e escreva castelhano?

Se me perguntam a mim direi que há tanto de natural nisso, em exigir a uma pessoa na Galiza que fale e escreva castelhano, como o que havia de natural na norma que proibia às mulheres votar ou abrirem uma conta bancária sem a autorização do seu esposo, e assim por aí fora...  Hoje ficamos horrorizadas ante tal cousa. Mas nada veio sem esforço, foram anos de luta para derrubar ‘verdades’ que estavam bem estabelecidas; verdades que eram tão verdadeiras como as que hoje se impõem nas questões da língua.

Afortunadamente hoje sabemos como denominar o que nos fizeram às mulheres em nome dessas leis, hoje, também afortunadamente, caducas, mas...  Sabemos como chamar a lei que protege o castelhano no nosso próprio território, onde a língua galega tem sido violentamente tratada ao longo da história para beneficiar essa outra língua? Eu sei. Como também sei que estamos ainda longe das conceições linguísticas que possam pôr nome a isto que atenta contra os direitos humanos mais elementares dum povo: o direito à sua identidade.

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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