A Lingua das Cantigas

A soidade/suidade na lírica galego-portuguesaYara Frateschi Vieira
    A extensa bibliografia que se dedicou a estudar a "saudade" no contexto da cultura galega e portuguesa, principalmente deste século, costuma apontar a existência desse sentimento já na lírica galego-portuguesa dos séculos XIII e XIV. Vários estudos examinaram questões relacionadas ora com a etimologia e o significado da palavra(1), ora com as suas derivações filosóficas nos séculos XIX e XX.(2)

    No entanto, apesar de toda a atenção de que foi alvo a evolução e o significado do vocábulo, não encontrei nenhum trabalho que se preocupasse exclusivamente com o emprego de "soidade" ou "suidade" (a forma "saudade" é posterior(3)), na lírica galego-portuguesa, e é a essa questão que se dedicam as páginas seguintes.

    A primeira delimitação a fazer é que só me ocuparei das cantigas onde ocorre o próprio vocábulo, nas formas "soidade" e "suidade"(4). Deixarei portanto de lado as cantigas em que se patenteia um "estado saudoso", mas que não empregam aquele termo para designá-lo(5). Dessa forma, limita-se dramaticamente o corpus.

    1.Lírica profana(6) (citarei apenas o contexto necessário para a compreensão do significado do vocábulo):
Dom Dinis (B 578, V 181; Lang 102(7); RM 25, 52(8)): Nom poss'eu, meu amigo,/ com vossa soidade/ viver, bem vo-lo digo; (B 526a, V 119, Lang 39; RM 25, 100): Que soidade de mha senhor ei/ quando me nembra d'ela qual a vi;
Estevam da Guarda (B 619, V 220, Pagani 1(9); RM 30, 23) Deseg' e coita e gran soidade/ conven, senhor, de sofrer todavia; (...) E queira El, senhor, que a mha vida,/ poys per vos he, cedo sei'acabada,/ ca pela morte me será partida/ gran soidad' e vida mui coitada;
Fernam Fernandes Cogominho (B 702, V 303, LPGP 40,3(10); RM 40, 3): Non queredes viver migo/ e moiro con soidade;
Joam Zorro (B 1156, V 758, Cunha 7(11); RM 83, 6): Met' el-rey barcas no rio forte;/ quen amig' á que Deus lh'o amostre:/ alá vay, madr', ond' ey suidade!// Met' el-rey barcas na Estremadura;/ quen amig' á que Deus lh' o aduga:/ alá vay, madr', ond' ey suidade!
D. Lopo Liáns(12) (B 1356, V 964, Pellegrini XIX(13); RM 87, 3): Á dona Maria soydade,/ Á dona Maria soydade,/ ca perdeu aquel jograr/ dizend' el ben; Nun' Eanes Cêrzeo (B 135; CA 389(14) ; RM 104, 1): Pero das terras averei soidade/ de que m' or' ei a partir despagado; e sempr' i tornará o meu cuidado/ por quanto ben vi eu en elas ja;/ ca ja por al nunca me veerá/ nulh' om(e) ir triste nen desconortado.
Pero da Ponte (B 1655, V 1189, Lapa 370(15); RM 120, 27)): Rubrica: Esta cantiga fez Pero da Ponte ao infante Don Manuel, que se começa E mort' é Don Martin Marcos, e na cobra segunda o poden entender. (...) pero un cavaleiro sei eu, par caridade,/ que vos ajudari' a tolher d'el soidade;
Pero Larouco (B 612, xxxx 214, Fiaño, s.n. [1](16); RM 130, 1): [Eu] non vos amo nen me perderei,/ u vos non vir, por vós de soidade.
Sancho Sanchez (B 939, V 527, Nunes 277(17); RM 150, 7): mais, porque ei d'el gran soidade,/ se veess' en, já lh' eu perdoaria.

    2. Cantigas de Santa Maria:
CSM 48, l. 38(18): Pois ssa oraçon fezeron, / a Sennor de piadade/ fez que sse cambiou a fonte / ben dentro na sa erdade/ dos monges, que ant' avian / da agua gran soidade,/ e des ali adeante / foron dela avondosos.
CSM 67, l. 79(19): Quand' aquest' oyu o bispo / preguntou-lle que om' era./ E ele lle contou todo, / de com' a ele v~eera/ e como lle lealmente / sempre serviço fezera./ Diss' o bispo: "Venna logo, / ca de ver-l' ei soydade."
CSM 379, l. 11(20): Dest' av~eo no gran Porto / que el Rey pobrar mandava,/ que é de Santa Maria, / en que el muito punnava/ de fazer y bõa vila; / poren termino lle dava/ grande per mar e per terra, / ca logar é dos mellores// Do mundo pera gran vila / fazer ou mui gran çibdade./ E el Rey de veer esto / avia gran soidade.

    Um total, portanto, de 15 ocorrências do termo, nas duas formas "soidade" e "suidade", se contarmos como apenas uma as duas da cantiga de Joam Zorro, uma vez que se encontram no verso do refrão, repetido duas vezes. Da mesma forma, poderíamos talvez considerar que tem apenas uma ocorrência a cantiga de Pero Larouco, já que o mesmo verso é repetido duas vezes, e portanto não há um contexto diferente. Isso nos daria 14 ocorrências do vocábulo, num total de aproximadamente 2000 cantigas, o que não constitui uma alta freqüência.

    A grafia preferida para o vocábulo, nas versões presentes no Cancioneiro da Biblioteca Nacional(21) e no Cancioneiro da Biblioteca Vaticana(22) é "soydade", aparecendo "soidade" nos dois versos da cantiga de Estevam da Guarda e nas cantigas 48 e 379 das Cantigas de Santa Maria(23). Para a forma "suidade", só temos a grafia "suydade", na primeira ocorrência do refrão na cantiga de Joam Zorro, uma vez que na segunda, como costuma ser o caso, não se transcreve o verso inteiro. O esquema métrico das cantigas comprova que a palavra era tetrassilábica: so-ï-da-de, su- ï- da-de.

    Na versão completa deste trabalho, analiso a ocorrência por gênero, a distribuição geográfica e cronológica e os significados que o vocábulo apresenta. Aqui, por limitação de espaço, darei apenas as conclusões(24):

    1) O termo "soidade/suidade" tem entrada tardia no lirismo galego-português. A única ocorrência que poderia, eventualmente, ser da primeira metade do séc. XIII, é a de Nun' Eanes Cêrzeo. Não sabemos a data de composição da cantiga, mas, como esse trovador morreu por volta de 1268, não é impossível que o texto seja dos meados ou mesmo já da segunda metade do século. O termo "soidade" é usado na quase totalidade das ocorrências (13), e "suidade"apenas uma vez em cada um dos dois versos do refrão da cantiga de Joam Zorro. Pelo contexto, "suidade" é semanticamente equivalente às ocorrências de "soidade" na lírica profana.

    2) O termo parece ganhar terreno à medida que o século avança; está bem instalado no reinado de D. Dinis e mesmo depois da morte desse monarca.

    3) Foi empregado, em distribuição equilibrada, por trovadores galegos e portugueses, bem como pelos monarcas D. Afonso X e D. Dinis.

    4) Ocorre em diversos gêneros: cantiga de amor, de amigo, de escárnio e maldizer, descordo, pranto (jocoso), cantigas mariais; contudo, à medida que o vocábulo consolidava o seu significado de "sentimento nostálgico, envolvendo a lembrança e o desejo de alguém ou algo perdido", passou a ocupar de preferência a esfera das cantigas de amor e amigo.

    5) Há uma distinção entre o significado que tem na lírica profana e o que possui nas ocorrências da lírica religiosa. Na lírica profana, encontramos sempre os elementos: ausência, falta e desejo (de um objeto-alvo, explícito ou implícito), podendo acrescentar-se o "cuidado, a rememoração constante". No cancioneiro marial, o significado é equivalente a "falta" ou "desejo" e, nesse último caso, pode chegar mesmo a prescindir da projeção para o passado, através da lembrança, e ser um perfeito sinônimo de "desejo". Esse uso distinto coloca-nos o seguinte problema: teria havido uma extensão do significado inicial (digamos, o da lírica profana), passando o vocábulo a ser usado em contextos diversos, onde se prescinde da noção de "falta" ou "afastamento" de algo perdido? ou, ao contrário, teríamos um significado original de "desejo", que se transformou na lírica profana, de forma a aplicar-se ao "sentimento nostálgico de falta e desejo de algo ou alguém"? Como são provavelmente contemporâneas as ocorrências documentadas nos textos com esses significados, é difícil determinar qual o sentido da evolução semântica.

    6) O vocábulo ocorre de preferência com objeto-alvo gramaticalmente explícito, mas pode aparecer, ocasionalmente, de forma intransitiva, identificando-se aquele através do contexto.

    7) Em nenhuma das ocorrências citadas, nem mesmo na linguagem narrativa das Cantigas de Santa Maria, a palavra "soidade/suidade" tem o significado "solidão", "isolamento", que corresponderia ao da sua origem etimológica (do latim solitatem). É conveniente recordar, a esse propósito, o que diz Vossler, a respeito da diferença entre o vocábulo galego-português e o castelhano "soledad": "En el uso del lenguaje portugués, el significado objetivo de "aislamiento"-"soledad" queda totalmente a la zaga del sentido nostálgico y de amor de la palabra, y es representado por otros vocablos, como soidão, solidão, isolamento, retiro, ermo, deserto, abandono, desamparo, ausência y por la palabra castellana feudal soledade. (...) Es decididamente definitivo para el lenguaje usual castellano que en ninguna época y en ningún círculo literario, ni una sola vez en los poetas de amor, el significado objetivo de soledad se encuentra en desuso como en el portugués."(25)


    Para terminar, creio que esse excurso pelas ocorrências de "soidade/suidade" na lírica galego-portuguesa demonstra que o vocábulo sofreu, ao longo dos séculos que nos separam dela, uma evolução semântica (além da apenas fonológica: de tetra para trissilábica e de "soidade/suidade" para "saudade"); nos sécs. XIII e XIV estamos muito distantes dos significados mais complexos que terá, a partir do século XVI, e principalmente mais tarde ainda, nos séculos XIX e XX.

NOTAS:
  1. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, A Saudade Portuguesa. Porto, 1914; 2a. ed. 1922; Aveiro, Estante Editora, 1990 (ed. facsimilada); Henry Lang , Cancioneiro Gallego-Castellano. New York: Charles Scribner's Sons, London: Edward Arnold, 1902, pp. 201; Karl Vossler, capítulo sobre "La palabra soledad", em La soledad en la poesía española (trad. del alemán por José Miguel Sacristán), Madrid: Revista de Occidente, pp. 11-27; Leo Pap, "On the etymology of Portuguese SAUDADE: an instance of multiple causation?" Word, vol. 43, no. 1 (April 1992) pp. 97-102.

  2. Como não irei ocupar-me dessas ramificações tardias do significado de "saudade", menciono apenas, para o Saudosismo português, Teixeira de Pascoaes, A Saudade e o Saudosismo (dispersos e opúsculos). Compilação, introdução, fixação do texto e notas de Pinharanda Gomes. Lisboa, Assírio e Alvim, 1988, que inclui também a polêmica entre António Sérgio e Teixeira de Pascoaes; Afonso Botelho e António Braz Teixeira, Filosofia da Saudade. Lisboa, IN/CM, 1986. Para as correntes de pensamento galegas: Ramón Piñeiro, Filosofía da Saudade. Vigo: Galaxia, 1984; VV.AA., La Saudade: Ensayos. Vigo: Galaxia, 1953; Salvador Lorenzana (=F. Fernández del Riego), Teorías interpretativas da Saudade. Vigo: Galaxia, s.d.; Andrés Torres Queiruga, Nova Aproximación a unha Filosofía da Saudade. Com resposta de Ramón Piñeiro López. Vigo: Real Academia Gallega, 1981; Luciana Stegagno Picchio, "A filosofia da saudade: saudades de Ramón Piñeiro." Grial, 126, T. XXXIII (abril-xuño 1995), 173-180.

  3. Cfr. Henry Lang, op.cit., p. 200; Carolina Michaëlis, op. cit., pp. 75-76.

  4. Conforme Carolina Michaëlis já observara, a forma primitiva "soedade" não aparece na lírica galego-portuguesa, ocorrendo apenas no Cancioneiro Gallego-Castellano.

  5. Chamando a atenção para a mudança semântica que sofreu o vocábulo ao longo dos séculos, observa Xesús Alonso Montero: "Quen bote unha lixeira ollada pola literatura medieval galego- portuguesa decatarase que a verba `saudade' (daquela soidade, suidade) non se amostra, nin con moito, tantas veces como en datas máis modernas. Se pudésemos rexistrar todolos sensos que o vocablo tiña na Edade Media e logo cotexar estos sensos coas mil adiciós semánticas que se lle fixeron nos tempos posteriores, veríamos que a semántica da verba medrou en gran cantidade." "Filoloxía e historia cultural da verba saudade". VV.AA., La Saudade. Ensayos. Vigo: Galaxia, 1953, pp. 121-127: 121-122.

  6. Gostaria de mencionar que o meu trabalho de levantamento foi muito facilitado pela publicação dos dois volumes da Lírica Profana Galego-Portuguesa. Ed. e coord. de Mercedes Brea. Santiago de Compostela: Centro de Estudios Lingüísticos e Literarios "Ramón Piñeiro", 1996; agradeço especialmente ao Prof. Xosé Luís Couceiro que pôs à minha disposição uma cópia do corpus em disquete.

  7. Henry R. Lang, Das Liederbuch des Königs Denis von Portugal. New York, Georg Olms Verlag, 1972 (Reprint: Halle a.S., Max Niemeyer, 1894).

  8. G. Tavani, Repertorio metrico della lirica galego-portoghese. Roma: Edizioni dell'Ateneo, 1967.

  9. Walter Pagani, "Il Canzoniere di Estevan da Guarda". Studi Mediolatini e Volgari, vol. XIX (1971) 53-179.

  10. Lírica Profana Galego-Portuguesa, op. cit., vol. I, p. 282. Edita-se o texto segundo Nunes 134, mas emendado por Rodrigues Lapa, em "O texto das cantigas de amigo", Miscelânea de língua e literatura portuguesa medieval. Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1982, 141-195. No comentário à cantiga N 134, Lapa observa: "N. faz uma interpolação inaceitável, não advertindo que soidade tem 4 sílabas."

  11. Celso Ferreira da Cunha, O Cancioneiro de Joan Zorro. Rio de Janeiro, 1949, pp. 57-58.

  12. Ricardo Carvalho Calero sugeria a grafia Liãs, argumentando que o til sobre o a, presente em quatro das onze ocorrências do nome, poderia indicar uma pronúncia de vogal nasal, e não a pronúncia de vogal + nasal, como em Liáns. Cf. "Il Canzoniere di Don Lopo Liáns", Grial, 27 (xan. febr. marzo 1970) pp. 75-78: 76-77.

  13. Silvio Pellegrini, Il Canzoniere di D. Lopo Liáns. Separata de Annali dell'Istituto Universitario Orientale di Napoli, Sezione Romanza, XI, 2 (1969).

  14. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, Cancioneiro da Ajuda. Reimpressão da edição de Halle (1904), acrescentada de um prefácio de Ivo Castro e do Glossário das cantigas. Revista Lusitana, XXIII. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1990. 2 vols.

  15. Manuel Rodrigues Lapa, Cantigas de Escarnho e de Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses. 2a ed. Vigo: Galaxia, 1970.

  16. Teresa Fiaño Gandaras, Teresa López Fernández, Esther Lorenzo García, Xosé Ma. Dobarro Paz, Carlos Paulo Martínez Pereiro, "As cantigas de Pero Larouco". Actas del I Congreso de la Asociación Hispánica de Literatura Medieval. Santiago de Compostela, 2 al 6 de Diciembre de 1985. Edición a cargo de Vicente Beltrán. Barcelona: PPU, 1988, 281-288.

  17. José Joaquim Nunes, Cantigas d'amigo dos trovadores galego-portugueses. Lisboa: Centro do Livro Brasileiro, 1973. 3 vols.

  18. Walter Mettmann, Alfonso X, o Sábio, Cantigas de Santa Maria. Coimbra: Acta Universitatis Conimbrigensis, 1959-1972. 4 tomos. Tomo I, pp. 139-140.

  19. Ibid., p. 200.

  20. Ibid., t. III, p. 314.

  21. Cancioneiro da Biblioteca Nacional (Colocci-Brancuti). Cod. 10991. 1. Reprodução facsimilada. Lisboa: Biblioteca Nacional, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1982.

  22. Cancioneiro português da Biblioteca Vaticana. Cod. 3804. Reprodução facsimilada. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos, Instituto de Alta Cultura, 1973.

  23. Fio-me aqui da transcrição de W. Mettmann.

  24. Agradeço a Brian F. Head a leitura de uma versão preliminar deste trabalho e as valiosas sugestões, que me ajudaram a tornar essas conclusões mais explícitas e precisas.

  25. La Soledad..., op. cit., pp. 12 e 17.
Volver