A Lingua das Cantigas

Por que falamos galego? Uma resposta medievalValentim Rodrigues Fajim
    1.0. A superficialidade.

    Se queremos conhecer uma pessoa, uma cultura ou uma realidade qualquer, não avonda com um contacto ténue ou uma conversa futil. Há que descer até uns mínimos de profundidade e só então poderemos presumir de certo conhecimento ao respeito.

    Trasladada esta reflexão para o campo das línguas, uma das superficialidades mais comuns, e existem demasiadas, é afirmar que uma língua alcança este status por mor de determinadas características formais, quer fonéticas, morfo-sintácticas ou léxicas. Desta sorte, línguas como o galego, o português e o espanhol deviriam em línguas por serem diferentes:

LATIM   GALEGO  PORTUGUÊS  ESPANHOL  
terraterraterratierra
domnudonodonodueño
cuniculucoellocoelhoconejo
cannacanacanacaña
cenaceaceiacena
fabularefalarfalarhablar
cavallucabalocavalocaballo


    Isto no que diz da fonética, mas deveriamos acrescentar também rasgos morfo-sintácticos como o emprego do artigo diante do possessivo, o uso do infinitivo conjugado, de tempos verbais compostos, da preposição "a" quando marca de OD, a colocação dos pronomes clíticos e um longo etc.

    E existiria uma evidência, galego, português e castelhano são realmente diferentes, isto é, não iguais, mas não seria esta a base do seu status de língua. Nesta visão tão popular, e às vezes infelizmente, também erudita, como veremos mais abaixo, as línguas são uma sorte de compartimentos-estanques, de categorias aristotélicas ao modo das tonalidades de um arco-da-velha corando no horizonte, em fim, de essências. O axioma é o seguinte: existem diferenças, existem línguas. Na verdade, a ordem de premisa e conclussão é radicalmente inverso. Orabém, para compreender a realidade no seu conjunto, cumpre deixar atrás raciocínios acomodatícios.

    2. O continuum

    A chave para superar qualquer juiço superficial sobre aquilo que é uma língua é o que se denomina continuum lingüístico. Bom, decerto só a palavra continuum seria suficiente. Falamos de um continuum quando uma realidade apresenta uma variação mínima e continuada polo que só sentiremos um contraste quando ponderemos dous pontos relativamente afastados. Um bom exemplo são os climas. Qualquer habitante da Península afirmaria com alegria que o norte (vg. Santiago) e o sul (Sevilha) têm climas "diferentes". Orabém se essa mesma pessoa percorresse a Península de norte a sul ou de leste a oeste com o cometido de ditaminar científicamente o que é o norte e o que é o sul, a variação seria tão mínima de quilómetro a quilómetro quanto a temperaturas e precipitações que de nenguma maneira poderia afirmar: Sim, é claro, aqui começa o norte e aqui o fai o sul. Todo o corte seria aleatório, relativo e personalíssimo.

    Outro tanto se passa com as cores. Do branco até o preto existe uma variabilidade mínima que cada um disecciona como tem a bem ou, mais correcto seria afirmar, como lhe aprenderam. Por esta razão, onde um ocidental mal vê um, dous, talvez três brancos, um esquimô encontra várias dezenas.

    Se nos movermos no terreno lingüístico, teremos de fazer uma classificação que tornou clássica (ou deveria) e que divide as línguas, em função da sua génese, da sua aparição social, em línguas por distanciamento e línguas por elaboração. As primeiras vêm a ser como se nalgum ponto da Península se instalasse de súbito uma massa de ar antártica rachando com o continuum existente. De se instalar, por exemplo, em Sória, o continuum ficaria rachado já que numa província co-lateral qualquer (Guadalajara ou Burgos), teriamos x gráus centígrados e na de Sória, repentinamente, várias dezenas baixo zero. No terreno humano é o que acontece quando há uma migração. Eis o caso dos húngaros, fineses, bretões, romenos, galeses, escoceses... e, claro está, dos bascos. A migração romana para a Hispánia e a Gália isolou aos bascões criando um língua que era tal polo seu contraste com a latina (defacto, nem sequer se trata de uma língua indo-europeia). Assim, para perguntar a hora: What time is it?, o continuum existente, grosso modo, desde a Costa da Morte até Girona seria o que segue:

    Que hora é? (Com o aberto: Galiza ocidental),
    Que hora é? (Com o fechado: Galiza oriental),
    Que hora ia? (Luarca, Tineo e em geral no ocidente asturiano)
    Que hora ia/yia/ya? (Navelgas),
    Que hora ye? (Asturies central e oriental),
    Qui hora ye? (montanhas cántabras),
    Zer ordu da?
    Que hora ye? (Campo de Jaca, Bielsa, Benasque...)
    Que hora ya? (Torla)
    Que hora es? (Com e aberto: Catalunya)

    Confiamos em que o exemplo fosse clarificador. Por outra parte, existem outro tipo génese para as línguas, na Europa as mais comuns, que denominaremos línguas por elaboração. Estamos a falar das línguas románicas (excepto o romeno que seria uma língua por distanciamento no coração das línguas eslavas) e as germánicas, no passado uma única língua e hoje várias. Popularmente explica-se esta mudança com uma frase que tornou típica: evolucionaram de jeito diferente. O erro é marcadamente filosófico ou melhor, lógico. Consiste no seguinte esquema racional: toma-se a realidade, disecciona-se nas partes que achamos convenientes e logo chega-se à conclussão de que cada parte é diferente entre si. Aquilo que nunca se explica é a causística da disecção, é dizer, porque se tomaram essas partes e não outras, e a chave radica precissamente ai, no porquê.

    Acontece é que se tomarmos uma unidade qualquer afectada por um continuum e a partirmos, cada parte tem que ser de necessário diferente. O clima da Galiza é diferente do da Andaluzia. É uma obviedade que os termómetros e os pluviómetros se encarregaram de mostrar-nos mas também o clima da Corunha é diferente do de Santiago, e o de Conjo (bairro santiaguês) não é o mesmo que o de Belvís, (mais outro bairro de Santiago), e o de cada casa de Conjo é diferente entre si. O mesmo passa-se com as línguas por elaboração. O galego é diferente do castelhano e o português, mas também o tudense do ancarês, o minhoto do lisboeta ou o açorino, o andaluz do cántabro e a fala de quem escreve este relatório e a de cada um de vós, leitores. Nesta tesitura, alguém talvez gostaria de jogar à matemática para ditaminar que o galego é mais diferente do castelhano e o português do que as suas variedades internas entre si, constituindo esta a razão pola qual o galego resulta uma unidade. Demonstraria então que não acabou de entender o processo.

    1) Quando constrastarmos duas variedades (chamen-se línguas), que elementos tomaremos cientificamente como próprios e e representativos de cada uma delas? Se contrastarmos galego com português e castelhano que formas nos representarão como derivadas do latim multum? muito / moito/ muto/ mutio? E de amatis? amais/amades/amandes/amás? Todas as formas citadas são galegas. "A mais numerosa" poderia apontar alguém. Teriamos na altura que ir casa por casa para quantificarmos este dado e estarmos atentos para as defunções e os primeiros balbuceios das crianças. De todo o modo, ai vão mais de 10 formas galegas que são recolhidas no galego oficial (e muitas utilizadas habitualmente para contrastar galego e português ou galego e castelhano) e que não são maioritárias ou em todo o caso apresentam um empate manifesto:

    1) A oposição irmán/irmá, presente apenas em um 2% do território galego, em concreto, na Límia Baixa frente as maioritárias irmao/irmá ou irmán/irmán).
    2) Colleullelos, frente a colleullos, forma geral excepto na província luguesa.
    3) A gheada, propria das províncias corunhesa e pontevedresa
    4) Tu, própria de Lugo/Ourense e o galego exterior frente a ti.
    5) dicir frente a decir, maioritária.
    6), animais, frente a animales, maioritária
    7) dez/luz frente a des/lus, na maior parte das províncias corunhesa e pontevedresa.
    8) pantalóns frente a pantalós,
    9) isto -forma potenciada pola norma- frente a esto,
    10) cantaches (frente a cantache).

    No terreno léxico a problemática seria ainda maior já que formas como "deus", "beirarrúa" ou "doninha" apresentariam igualmente uma séria problemática de representatividade. A forma Deus suporia ignorar que a maior parte dos galegófonos empregam a correspondente forma castelhanizada "Dios". Em caso de que alguém apontara rechaçar toda a sorte de castelhanismos, haveria que descartar, na altura, Galicia, espacio e canción. Por sua parte, "beirarrúa" é fruto da inventiva de um filólogo concreto e "doninha" é uma entre as dezasseis formas distintas de referir-se a este pequeno mustélido.

    2) Mais de acordo, passemos por alto o ponto 1º e aceitamos a falácia de uma unidade lingüística poder ser representada cientificamente por uma única forma para cada aspecto fonético, gramatical e léxico. Decidamos então que muradão e ancarês são diferentes mais não o bastante diferentes já que o seu grau de dissimilitude é do 4% quando faria falta um 7% como mínimo, mínimo que se cumprimenta com o português -9%- e o castelhano -13- (as cifras são apenas orientativas). A questão é: em nome de que cousa o demiurgo de turno decide o umbral matemático de aquilo que é e de aquilo que não é língua. Defacto, com as diferenças existentes entre um hipotético galego e um hipotético português, o que hoje é italiano, ou alemão, dariam para criar cinco, seis ou sete línguas. Isto por não falarmos do espanhol, francês, o inglês ou o chinês...!

    Em resumo, aquilo que ditamina que as línguas por elaboração sejam tais línguas diferentes de outras línguas por elaboração, isto é, aquilo que ditamina a sua própria existência, pouco tem a ver com aspectos formais. O esquema é à inversa: assim que quebramos uma unidade lingüística em vários fragmentos, cada um deles é ineluctavelmente diferente aos restantes. Primeiro é a categoria e logo a diferença . A questão é porque se ralizou esta ou essa categoria e não aquela outra.

    De seguido vamos analisar quais foram os factores que permitiram que a dia de hoje, na Galiza, exista uma língua.

    3. Do Romance aos romances

    Como é sabido, o galego é uma língua latina. Isto quer dizer que o grosso da nossa gramática, léxicon e fonética remete para a língua vinda da Itália. Também não havemos de nos deter na queda do Império romano e a sua fragmentação política conseguinte, pois é cultura geral. Contudo, foi este um facto vital para o destino lingüístico da Románia porquanto permitiu a deriva posterior. Desaparecido um poder político unitário e amalgamador de consciências, a unidade tivo de ser mantida a duras penas pola Igreja cristã. Orabém, ninguém se engane, a queda da unidade política não tinha que conduzir necessariamente à substituição do latim polas línguas romances. A mesma fragmentação deu-se no mundo árabe e porém recolhem-se baixo uma única língua (língua, por certo, com maior varaiabilidade interna a nivel oral da que poda ter hoje a Románia. Pense-se que o árabe fala-se da República Saharaui até o Afeganistão).

    A pesar de o império de Roma ser subsituída por um amplo catálogo de reinos germánicos, não por isto o latim se fragmentou. As elites vencedoras rapidamente se romanizaram e o ideal do Império perviveu durante mais de 1000 anos. Carlomagno e Otão foram alguns dos seus fracasados adais (e em certa medida Felipe II e até Napoleão). Além disto, ao ficar o poder político feudalizado, mudados os territórios em pertenças pessoais, as cidades em crise e a cultura erudita hibernada, o latim não tinha num primeiro momento perigo de mudar num puzzle. Insistimos mais uma vez no seguinte: o latim não deixou de mudar a nível oral nunca, facto este nada estranho e comum a qualquer língua. Orabém, os seus falantes tinham consciência de pertencer à mesma comunidade lingüística (e espiritual) e como amalgamador deste sentir actuava a Igreja de Roma com a sua pléade de mosteiros e templos de todo tipo espalhados alhur e o seu grande poder espiritual, político e económico. Podemos resumir esta situação baixo a máxima: variedade na unidade, que em si, repetimos, é como não dizer nada. Toda língua apresenta variantes em função do espaço, do tempo, da classe social, do hábitat, do trabalho... mas são os falantes quem minimiza essa diversidade e a reconduz sob um mesmo selo grupal.

    Mas em fim, na Cristandade, à diferença do orbe musulmão, a unidade não se mantivo. O latim foi desalojando paulatinamente espaços que ocupou o romance, isto é, o latim vulgar, a forma oral do latim em cada lugar concreto. Um dos primeiros que "cedeu" foi o das actas notariais (por exemplo, testamentos ou arrendamentos), onde a claridade era essencial (o primeiro documento romance é já de meados do século IX e circunscreve-se ao reino franco) enquanto outros campos como a prosa histórica deverão aguardar vários séculos, por não falarmos duma tradução da Bíblia. De resto, o importante de todo este proceso é a elevação do romance para funções que antes monopolizava o latim.

    O puzzle estava servido. Isto não se percebe ainda nas actas notariais onde os escrivãos rara vez renunciam à sua variedade local. Nas suas penas o continuum fica quase impávido. Onde sim que é patente a elaboração é na lírica cortesã, aqui reside a detonante. Nesta, os autores renunciam os seus idolectos em aras de uma koiné, um código supraindividual com que se identificam tanto autores como receptores da produção literária em verso. É agora e só agora quando podemos falarmos de língua galega.

    Do mesmo jeito que uma cor só existe em oposição a outras cores, o galego só existirá em oposição a outras línguas, koinés ou tradições literárias. Existe o galego no momento em que um poeta burgalês deve dirimir se vai romancear em provençal, em galego ou mesmo em castelhano. A categoria só pode surgir em oposição e à par de outras categorias.

    Do mesmo jeito, quando um escrivão no século XIII redige um texto, ainda que o faga no seu romance de Tui, Lugo ou Braga, não está a escrever em galego, apenas em latim, um latim rústico, popular, romanceado, local mas latim de vez. Se por contra, esse funcionário começa a renunciar a sua fala individual e personalíssima e a empregar para a escrita convenções que o trascendem, que chegam da corte castelhana ou da portuguesa, da francesa ou da provençal, ora gramaticais, léxicas ou gráficas, neste caso sim que estamos a assistir ao nascimento duma língua. Por outras palavras, não é um problema de essencialismo, de dizermos ou escrevermos: [filho, cana, cão, paço] respeito a outros senhores e senhoras que fazem : [hijo, caña, can, palacio]. Quando existe um continuum cada fala é uma língua em si. A chave consiste em empregar tal grafia, tal elemento gramatical, tal lexicografia simplesmente porque irradiam de lugares respeitados e mesmo gloriosos, quase sempre cortes. Esta mudança, que é gradualíssima, consiste num processo facilmente abstraível em fases:

    A) Filtração do romance para textos latinos. Os centros irradiadores do latim, dependentes em exclusiva do labor eclesial, não têm a suficiente vitalidade como para os escrivãos manterem um nível medianamente correcto de latim, razão pola qual a sua pena deixa escapar elementos romances aqui e acolá.

    B) Pequenas glosas. O escrivão é consciente de que a distáncia entre latim e romance é grande e por esta razão, ainda que continua a escrever em latim, tenta ajudar ao leitor com apontamentos sobre determinadas palavras desaparecidas da oralidade. Assim, uma glosa redactada na França setentrional explica iecur acodindo ao sinónimo ficatus.

    C) Romance por motivos puramente funcionais. Trata-se de algo similar ao que se passou durante a invasão francesa da Península, quando eram redactadas volantelas em galego para serem bem compreendidas polos seus receptores. Os redactores não é que acreditassem nem por um instante em que o galego fosse uma língua e o castelhano outra. Simplesmente, eram conscientes da distância existente entre a língua e o dialecto e como o urgente era lograr determinadas cousas do comum da gente, em boa lógica, os textos eram trascritos em dialecto, na fala de cada lugar concreto para serem recepcionados por pessoas de esse mesmo lugar.

    Com o primeiro romance escrito aconteceu o mesmo. O primeiro documento conservado, os juramentos de Estrasburgo são clarificadores ao respeito. Estamos perante um pacto entre dous reis, um de fala románica e outra germánica (Carlos, o Careco e Luis, o Germánico). Os reis trocam as suas línguas para os exércitos opostos poderem perceber (e aceitar) o pacto. O rei germânico emprega o romance próprio dos exércitos de Carlos e não latim, porque a inteligibilidade era essencial. A soldadesca tinha de acreditar naquilo que lhe estavam a dizer e isto só podia nascer de ambos os reis empregaram um código compreensível para eles.

    Mas aqui ainda não há língua diferente do latim/romance. O que se há é uma diglossia entre duas variedades que remetem a uma mesma unidade lingüística, cada uma com uns usos estipulados e socialmente refrendados, se bem com a porta aberta para uma mudança. Não existe francês nos juramentos de Estrasburgo, apenas romance, só latim.

    D) Línguas. Os romances individuais de cada pessoa começam a nuclear-se em torno a determinados centros de poder e cultura, centros que rivalizam entre si. Agora, qualquer escrivão, qualquer poeta, receve a atracção de um ou outro polo, e começa-se a se desenhar uma distância entre aquilo que se fala e aquilo que se escreve, em especial naquelas facetas mais literárias.

    À hora de grafar a nasal palatal, um escriva hispánico dispõe de várias possibilidades emanantes de outros tantos lugares: "nn" (logo "ñ") desde a corte castelã, "nh" desde a Provença e logo desde a corte portuguesa, "ny" desde a corte catalã... À hora de escrever o nome do seu reino, um escriva de Mondonhedo pode tomar no século XIV várias opções e duas são as mais destacadas: "Galiza", forma tradicional e "Galicia", forma castelhana. A vitalidade político-económica do espaço galego determinará estas escolhas.

    4. O reino de Galiza

    A questao é a seguinte: porque a Galiza, e não Calatrava, Medina, Tui, Badajoz, Sevilha, a Ribagorça ou Leão? Porque precisamente foi o romance das cortes galego-portuguesas o elegido para inaugurar a primeira lírica peninsular no primeiro quarto do século XIII e dotá-la de um prestígio que se prolongou até a primerira metade do XIV?

    A historiografia clássica, pidaliana e castelhanista, não nos ajuda em excesso a procurarmos uma resposta satisfactória. Para esta escola, Castela é o alento esencial de um projecto nacional que afunda as suas raízes na noite dos tempos. Outras realidades políticas e territoriais ficam como comparsas daquela. É assim, que na baixa idade média será Castela, e Leão como actor secundário, quem levará o peso da reacção cristã frente ao invassor musulmano. O que é difícil de entender, porém, é a razão pola qual de ter sido assim a história, com uma Castela dominante desde o mesmo século X, não fosse Castela e a súa corte o lugar onde se desenvolveu o primeiro renascimento literário de carácter laico na Península. O que também não é doado de asimilar é por que Castela haverá de aguardar até o seculo XV para inaugurar uma lírica vernácula.

    Este paradoxo foi resolto tradicionalmente baixo a formula de um lirismo inerente à língua galega. Em palavras de Rafael Lapesa: A poesia lírica floreceu principalmente na Galiza e Portugal, favorecida polo sentimentalismo e suave melancolia da alma galega. Não explica o autor é por que a alma galega se dormiu durante vários séculos, os mesmos, espantosa curiosidade, que a Galiza conforma a periferia espanhola.

    Que se passou logo? Que a Galiza foi durante vários séculos, precisamente aqueles em que o romance começava a despontar frente ao latim, um cenário de poder, facto este indispensável para a génese de uma língua por elaboração.

    Como é sabido, falarmos na idade média de nações e nacionalismos é um absurdo. Os territórios eram patrimónios familiares que se desfaziam e se nucleavam com a mesma facilidade que as alianças pessoais dos seus proprietários. Pois bem, sucedida a invasão árabe da Península só o norte ficou em grau de semi-liberdade. Era este um amplo território que na historiografia árabe aparece denominado como Gallaecia enquanto a Hispánia vinha a ser, paradoxalmente para alguns, o espaço dominado polos árabes.

    Entre 1031 e 1250 será Gallaecia que leve o peso da Reconquista. De facto, quando os reinos cristãos se achavam por cima dos Piirinéus, o território da Gallaecia extendia-se, desde fazia séculos, nas proximidades de Lisboa. Acontece que estamos afeitos a tratar só como rei galego a Dom Garcia, quando a realidade é que aqueles monarcas que a historiografia espanholista tilda de leoneses, são na verdade também reis da Galiza pois todos tomaram este título, foram nados e educados aqui, muitos enterrados, além de ser Galiza o seu lugar de residência e manobra política. Na Galiza residem as linhagens detentadoras do poder, as mesmas que pojam por elevar ao trono os seus candidatos, conseguindo-o a imensa maioria das vezes antes da coroação de Fernando III, rei de Castela-Galiza-Leao, no 1230. O poder residiu até então na Galiza.

    Por esta razao, a primeira lírica peninsular é galega. Não por perder os -n- e -l- inter-vocálicos, situar os clíticos depois dos verbos ou por empregar o artigo diante dos possessivos. Isto é a consequência lógica de realizar um corte sobre o continuum. O que realmente dá categoria de língua são os agentes que permitem que se realize um corte. Estes agentes tiveram como motor o facto mesmo de ser Galiza um espaço de poder.

    Na verdade, é algo singelo. Contudo, estamos perante um problema de educação da lógica individual, que a sua vez emana de uma lógica social. O esquema é o seguinte: o latim carece de um centro amalgamador, de uma cobertura política, de um Estado. Por esta razão, a distância entre o latim clássico e o popular não deixa de aumentar e ademais, a consciência dos seus falantes de pertencerem a uma mesma comunidade lingüística está seriamente ameaçada. Por outras palavras, o latim vai falecer como língua unitária e no seu lugar vão agromar uma nova série de línguas que ocuparao o seu lugar. As possibilidades, a priori, são infinitas mas na verdade não são tantas. Existem uma série de agentes políticos que serão os demiurgos, os cirurgiãos do continuum. A chave radica nestes agentes. Por outras palavras, que se a história tivesse sido outra e o reino visigodo resistira até o Renascimento e logo se consolidasse o Estado até os nossos dias, hoje todos os hispánicos, a excepção dos bascos -língua por distanciamento-, falariamos uma única e solitária língua, ainda que o mapa de características fonéticas, gramaticais e léxicas fosse idéntico ao actual, mesmo que nós perdéssemos o -n- e o -l- intervocálico, situássemos os clíticos atrás dos verbos ou empregássemos o artigo diante dos possessivos.

    5. Galiza, Portugal, Castela

    A era compostelã -século XII- esplendorosa nos campos da arquitectura, a escultura e a música coincidirá com os reinados compreendidos entre Dom Garcia e Afonso IX, momento em que Gallaecia e Castela caminharão por veredas paralelas. Será precisamente este facto o que possibilite a existência mesma de um período aúreo. Com Fernando III, a Galiza integrará-se no eixo Castela-Toledo-Leão-Galiza mentres a Gallaecia do sul, Portugal, conservará a independência alcançada com anterioridade. Nos séculos que se seguirão a questao não ficou contudo fechada. Os monarcas portugueses não deixarão de interferir na política castelhana exigindo a Galiza e invadindo-a em múltiplas ocasiões. não é uma casualidade que 350 anos despois, com motivo da guerra pola sucessão de Enrique IV, o rei português Afonso V reclame ainda a Galiza.

    A inclusão da Galiza no eixo atrás mencionado e a consequente basculação do poder hispánico para Castela, terá umas consequências gravíssimas para a nossa fortuna histórica como futura nação. De sermos centro passaremos a periferia com as consequências evidentes que se derivam de este facto. "Sucedeu que do toro original galego surgiram duas ramas, uma mantivo a cultura e tradição galaica e tomou o nome, Portucale, dun território galego. A outra anexionou politicamente a Galiza, depois de responder inicialmente a uma tendência expansiva galaica para finalmente marginar ao reino originário. não foi extranho a este feito o debilitamento causado pola separação de Portugal " O autor estáa falar na chave de poder da época, a linhagem. Pode resultar curioso para a nossa mentalidade actual que os Trastámara, dinastia que tivera uma génese galaica, seja um dos motores, a raíz da política de alianças associada à reconquista, que mudarão a Galiza em apêndice de Castela.

    Sirva como mostra da periferização a evolução das Cortes. Enquanto que com Fernando III, o Santo, ainda se convocavam por separado as de Castela e as de Galiza-Leão, com o seu filho unifcaram-se e terão como sede quase sempre alguma cidade castelhana, alguma vez leonesa e nunca uma galega. É mais, a meados do XIV, das dezoito vilas e cidades com direito a representação nas cortes, nem a primeira era galega, nem mesmo Santiago. A Galiza desintegrava-se em Castela.

    Por sua parte, Portugal sim que logrou constituir-se em centro até o ponto de intervir amiude na política de Castela, em especial a respeito da Galiza como já referimos atrás. A indepêndencia de Portugal tornou uma mistura de benção e maldição para a Galiza e o galego. Maldição porque acantona a Galiza-Leão no extremo nor-peninsular sem possibilidades de expansão e facilita a sua periferização a respeito da emergente Castela. Benção porque a língua galega passa a ter agora duas respostas para a história: aquém-Minho e além-Minho, como sabemos, de resultados bastantes dispares.

    Na verdade, no momento do reconhecimento do título real para Afonso Henriques de Portucale o que se evidencia são duas vias para a expansão da Gallaecia: uma, a de Gallaecia-Portucale, aposta pola consolidação de um reino independente que se expande para o sul. A outra, a de Gallaecia-Lãao procura, e consegue na altura, a hegemonia peninsular frente a Navarra-Aragão (Castela era apenas um território-chave) patente na mencionada era Compostelã. Ora, passou-se depois é que o balanço de forças mudou e, com o advenimento de Fernando III, como monarca castelhano-leonês-galego, a Galiza mudou em apêndice de um novo centro enquanto Portugal, para nós a aposta além-Minho, sim que tivo fortuna.

    6. Galego, português e castelhano.

    Como é evidente, o referido no epígrafe anterior terá a sua justa equivalência no campo lingüístico. Aconteceu na lírica e também no prosa notarial por nos deter apenas em dous apartados bem dilucidadores e bastante estudados.

    A lírica galego-portuguesa terá o seu arranque com Afonso IX se bem tudo aponta para a existência de uma tradição oral anterior. O período de esplendor coincidirá com Fernando III e, sobretudo, com Afonso X, o sábio, no que diz dos reis castelhanos e com Afonso III e D.Dinis a respeito dos monarcas portugueses.

    Numa primeira fase, desde fins do século XII até começos do XIII será Galiza o centro mais importante de criação poética enquanto a partir de meados do século XIII será Portugal quem leve a direcção ao se consumar a periferização de Galiza-Leão. Ao tempo que grande parte dos trovadores galegos trasladaram-se à corte castelhana e secaram, paseninho, as raizes que alimentavam essa poesia, em Portugal raizes e talo e flores ficavam coesionados porque Portugal tinha corte própria. Todo isto traduzira-se na inevitável castelhanização da poesia lírica outrora galego-portuguesa, estamos a falar, claro está, da conhecida como lírica galego-castelhana, síntoma inequívoco dos roteiros por que continuou a nossa língua. Esta fase intermédia constituirá o prelúdio da lirica apenas em castelhano, séculos depois de ter emergido a galega.

    No terreno da prosa notarial acontece mais do mesmo. Segundo avançam as agulhas da história o grau de castelhanização aumenta sem cesar, primeiro em fórmulas legais do tipo testigo, depois quaisquer tipo de palavras até conformar uma forma híbrida que desembocará finalmente em um castelhano salpimentado com galego. Por contra, em Portugal, o território meridional de idioma galego, a não interferência de Castela asegura que se conserve genuinamente a nossa língua (o que também ocorre, e não é casualidade, com o nome do nosso país). Este esquema é mais frequente do que podamos pensar: uma língua com variedades em situação diglóssica enquanto outras ficam como línguas de cultura. Por citar apenas uns casos: o espanhol de Porto Rico e dos mesmos EEUU, o quebequês ou francês do Canadá, ao alsaciano ou alemão da França, ao valdostano ou francês da Itália, o flamengo (no passado, antes de se reintegrar) ou holandês da Bélgica, às línguas túrquicas da extinta União Soviética, ao moldavo ou romeno da Moldávia, e em geral a todas aquelas variedades que carecem de Estado próprio. Em todos estes casos sucede que a língua, tanto a nível formal como sociológico, sofre um processo de dialectalização com respeito à língua dominante do Estado em que está inserida. Ao outro lado da fronteira, a outra variedade, goçando de um Estado próprio, sim que conserva uma independência formal e sociológica. Como resultado disto, as variedades sem Estado empapam-se de termos da língua-tecto constituíndo "castrapos" inviáveis, mesclas sem identidade definida que caminham lenta, agora já rapidissimamente com a globalização, face à sua desaparição. Em todos estes casos, os processos de regeneração, os modelos a imitar, estão em muitas ocasiões do outro lado da fronteira, naqueles lugares onde a língua tecto não existe.

    De todo o modo, houve um momento em que o galego e o português estiveram de novo unidos no seu destino, dado este que não costuma a se ter em conta. Foi durante o período da Coroa Unificada (1580-1649) dos Filipes. Neste trecho da história, o galego-português estivo na sua integridade coberto pola língua castelhana. Em Portugal tivo como consequência o emprego desta língua pola maioria, e quase sempre os melhores, dos literatos do Reino e a inexistência de um teatro autóctone, copado este campo polas companhias chegadas desde Castela, em um momento em que o teatro era um dos gêneros mais populares. A nível formal deveu na assimilação de centenas de castelhanismos: cavalheiro, castelhano, congoxa, gana, barruntar, bobo.... Decerto, de não ter atingido de novo a independência, a dia de hoje estaria na mesma situação depauperada em que nos achamos nós.

    Na Galiza, em troca, o proceso de castelhanização foi continuado.A sua desaparição das esferas elitistas, ora na literatura, ora na Administração, ora no ensaio, permitiu que o castelhano se introduzisse em pacotes manufacturados: léxico científico, jurídico, literário, histórico, fraseologia... Mesmo a carência de um Renascimento foi gravíssima pois é nessa altura da história europeia que as línguas se requintaram com o património comum greco-latino, carência esta que não sofreu a variedade galega de além-Minho. Defacto, pares eruditos/cultos como personalizar/persoa tiveram de ser reconstruídos, a pesar dos pesares, sobre a Renascência portuguesa. Enquanto o português percorreu o mesmo trajecto que qualquer outra língua de cultura occidental e románica, o galego dialectalizou-se a respeito do castelhano. As nossas elites, as mesmas que criaram o galego, acodiam agora a Castela ou bem adoptavam marcas de identidade alheias, entre elas, a língua. O povo lhano, por pura inércia, era o único que a conservava.

    7. A "separação".

    Tradicionalmente vem-se falando da separação formal do galego e do português num período que se fixa no século XIV. Este relatório tivo como justificação principal preparar o caminho para desestimar, por superficial, a afirmação de uma separação entre o galego e o português como tradicionalmente se sustentou e tentar ir além deste discurso para-filológico. Somos conscientes de que a tese da separação é um posicionamento necessário se o que se pretende é evitar tomar Portugal e o português como fonte de regeneração lingüística. De existir uma separação formal, como se tem argumentado, a recuperação do galego teria de procurar-se com as suas próprias e exclusivíssimas forças. Como é óbvio, nós não somos desta opinião.

    Para começar, cimentar a bifurcação de uma língua em função de critérios formais: gramaticais, lexicais, fonéticos, é saber mui pouco do que uma língua realmente é, como nasce e porque existe. Aparece nos livros de texto para os liceus uma argumentação similar a esta que segue: "o galego e o português separaram-se no século XIV porque o galego tinha sibilantes distintas respeito ao português e ademais carecia de vogais nasais". É um argumento tão facilmente rebativel que a dificuldade estriba por onde começar a rebatê-lo. Limitaremo-nos a insistir nos argumentos oferecidos ao começo deste trabalho a respeito da génese das línguas por elaboração. Na verdade, entendido aquilo, este ponto não deveria oferecer dificuladades, mas é certo que não é doado transgredir um pensamento dominante.

    a) Se a existência de isoglossas fonéticas (porque não morfosintácticas ou léxicas?) determina a eclosão de uma língua em duas, o galego perdeu a sua unidade: gheada e seseio ao ocidente respeito do oriente.

    b) Um contra-argumento poderia apontar que no caso do galego-português existem mais fonemas divergentes do que entre o galego ocidental e oriental. Pois bem, quantas isoglossas fan falta? Que pessoa ou instituição pode adrogar-se o direito de determinar uma cifra? Mas em fim, vaia por diante um dado esmagador: com as isoglosas que separam o galego e o português medieval, o chinês, língua falada em um território que compreende mais de 9.000.000 km quadrados (Galiza-Portugal soma apenas 13.000) constiui uma unidade. O mesmo poderia-se dizer do árabe, do alemão, do francês, do italiano, do russo, do hindi....Porém, como ninguém de nós é doutor em dialectologia destas línguas, que tal se tomamos o unitaríssimo espanhol? Que se passa com todos aqueles traços distintivos do andaluz a respeito do estándar castelhano?:

    1) O perda do elemento oclusivo da única africada espanhola: mucho>muxo
    2) Perda de /r/ e /l/ em posição implossiva final: papel, amor> papé, amó.
    3) A aspiração da jota castelhana
    4) Confusão de /l/ e /r/em posição implosiva medial: falda>farda
    5) A perda do -s implosivo de graves consequências estruturai já que os plurais realiza-se abrindo a vogal final que a sua vez abre a tónica: los monos> lo mono (todos os /o/ são abertos)
    6) Por queda do -n final, nassalização da vogal precedente, fonológica já nalguns cassos como, por exemplo, para distinguir a P3 da P6 do presente do verbo ir.
    7) O uso de "ustedes" como pronome sujeito o que se traduz na inexistência da P5: "ustedes van".
    8) A queda da preposição em frases como. "Tengo un doló cuello".
    9) O desgaste fonético das consoantes finais e procesos analógicos levan a paradigamas como: "yo ha dicho, tu ha dicho, el ha dicho, ello ha dicho (P6)", onde o pronome sujeito cobra um valor fundamental como marcador de pessoa.
    10) O seseio e o ceceio.
    11) A palatalização do fenómeno do "yeismo": "gallina" é pronunciada com uma pré-palatal sonora como o francês "jambe".

    Existem mais issoglossas mas como o relatório versa sobre a nossa língua, passaremos página..

    c) Porque essa ânsia por tomar aquelas marcas que nos separam e não as dezenas, centenas ou miles que nos unem ao noso diassistema histórico? O limite entre língua e não-língua só vem determinado pola forma no caso concreto das línguas por separação, como o euskara.

    Esta superficialidade ten sido levada ao extremo de negar mesmo a existência de uma língua comum para galegos e portugueses em ningum momento da história. Para sustentar esta brilhantez bota-se mão, mais uma vez, de elementos formais: por exemplo, a maior presença na Galiza do ditongo -oi- frente ao português -ui- ou o uso mais ou menos abundante do artigo diante dos possessivos. A cegueira polas categorias dadas leva a extremos como este. Talvez a metáfora do clima ajudaria àqueles que sustentam tais argumentações a entender melhor o fenómeno lingüístico. O galego não é idéntico ao português do mesmo jeito que não o é o ancarês do tudense, nem o bragarense do açorino. Como tampouco o é o que eu falo nem o que falas tu, o que me estás a ler (ou dizes "estar lendo"? Ou dizes "dis"?) e na verdade do que falo eu neste momento da minha vida a respeito do que falava anos atrás ou do que falarei na minha velhice. As línguas por elaboração, reiteramos, devem a sua génese a factores políticos. O galego não é albanês, nem bretão, nem escocês, nem húngaro, nem por suposto, euskara. É uma língua que se elaborou desde o latim e frente ao castelhano. Se insistimos tanto nestas argumentações é porque, infelizmente, é necessário. Quem quiser separar o destino do galego e do português pode, e deveria, acudir a outro tipo de argumentos mais sérios.

    Pois bem, situado a teoria da separação formal no seu lugar ainda resta outra natureza de separação, ao menos mais profunda que a anterior, e que fala de separação sócio-lingüística de galego e português, é dizer, que os falantes de uma e outra variedade não se reconhecem como usuários de uma mesma língua. Nesta tesitura, o mais funcional é iniciar um caminho em solitário com as próprias forças já que tentar recuperar a distância sociológica perdida suporia um grande malgasto de energias. Trata-se de uma argumentação que, em si, é bastante redonda. O seu principal erro, porém, é o seu atomismo. Nós apostamos pola estrutura.

    8. A estrutura do conflito lingüístico galego (conclusão)

    Uma argumentação infelizmente abundante afirma que a elaboração do padrão galego é tarefa de filólogos. Tenta-se com esta leitura ingénua da realidade, situar a nossa língua na mesma problemática da de outros códigos como o euskera ou o catalão, onde eminentes filólogos (Michelena e Pompeu Fabra) foram determinantes nas escolhas efectuadas no estándar. Sem embargo, nós estamos inseridos numa estrutura bem diferente, mais complexa.

    O galego não é euskera porque o que ali têm, tiveram, de dirimir não foi a sua identidade. Os seus debates internos versavam sobre qual dos vários dialectos onde ainda se consevava viva a língua se ia basear o batua, o euskera estándar. Pusemos em negrito a palavra internos já que estamos ante um debate onde os representantes do espanhol nada têm a dizer e onde uma escolha ou outra em nada os vai favorecer, é dizer, que seja o labortano, o biscaíno ou o alto-navarro o escolhido em nada vai influir o status do espanhol. Para os catalães o que havia que dirimir era o grau de regeneração da língua, o grau de historicismo, de pureza.... assim como a forma de integrar as variedades não-barcelonitas no estándar. Neste caso, também o castelhano não tem nada a ganhar a respeito das decisões de um comité de filólogos. Estamos de novo perante um proceso perfeitamente interno.

    O caso do galego é diferente mas em absoluto único. O galego não é simplesmente uma língua minorizada frente a uma língua A. No nosso caso existe mesmo um problema de identidade: somos uma língua frente a castelhano e português ou somos galego-português frente ao castelhano.

    Existem estruturas tripartitas similares à nossa e de sobra conhecidas no nosso ámbito cultural: [valenciano/catalão, castelhano], [flamengo/holandês, francês], ou [moldavo/romeno,russo] Como é fácil comprovar, estamos perante três actantes, e não dous como o euskara vs castelhano e o catalão vs.castelhano.

    Tomemos o caso moldavo com os seus três actores: as falas moldavas, o romeno e o russo. Moldávia foi uma das já desaparecidas repúblicas socialistas soviéticas, habitada por um 65% de moldavos frente a um 35% de russos, poloneses, ucrainos e gaugueses. Estas falas moldavas fan parte de um continuum latino no Oriente europeu rodeado de línguas eslavas e da língua húngara. Por poder, tanto podem constituir-se em língua independente do romeno como vertebra-se em uma variedade de este. Porém, a decisão não depende apenas dos moldavos. Ao respeito diz Tagliavini: a língua moldava não é mais do que o romeno literário, escrito com alfabeto ruso ligeiramente modificado, com algums concesões a formas dialectais moldavas, polo demais não desconhecidas em Romenia. Considerando que toda nação soberana e independente tem o direito de eleger o idoma nacional que lhe pareça opino que o governo da R.S.S. de Moldavia poderia perfeitamente escolher como idioma nacional e começar a fixar como língua literária, a fala de tipo "moldavo" do seu território ou da sua capital. De tal modo teria procedido como o Grande Ducado de Luuxemburgo, que ao lado do francês e o alemão introduczu como língua oficial o Letzeburgisch, uma variedade do francão do Mosela. Mas a ninguém, nem em Luxemburgo nem em parte nenguma se lhe ocorre dizer que se trata de uma nova língua germánica distinta do complexo dos dialectos alemães.

    Orabém, existe uma personagem neste enredo que tem mais do que interesses filológicos ao respeito: Russia. Não faz falta ser um grande estratega para compreender que uma Moldávia desligada limgüísticamente da Roménia será mais facilmente assimilável na Madre Russia com a que já comparte a mesma ortografia assim como grande quantidade de lexicografia moderna e, em fim, palavras cultas. O que se segue também nos soará bastante: a independência do moldavo com respeito ao romeno é a estas alturas um dogma da lingüística soviética. Os lingüístas romenos costumam silenciar este problema fictício (que é político e não lingüístico) mas levam este silêncio consentidor até o ponto de eliminar a zona romenófona do outro lado do Prut não só da nova série do ALR (Atlás lingüístico da Roménia) senão que, de passo, de todas as investigações lingüístics e dialectológicas. Em fim, que é tal a distância sociológica entre romenos e moldavos que na própria Roménia facilitam o isolamento e consequente dispersão do moldavo no russo.

    Tomemos agora as línguas túrquicas da ex-União Soviética. Reproduzimos as palavras do lingüista Jan Knappert, citadas por Calvet: Em Sibéria meridional, os dialectos turcos como o tucmeno, uzbeco, cara-calpac e o quirghiz não se empregavam na literatura; empregava-se na maior parte do Turquistão uma língua literária, o jaghatay, escrita em caracteres árabes (estamos a falar, não se esqueça, de comunidades musulmanas). Pouco depois da revolução russa estabeleceram-se diferentes ortografias com caracteres latinos para cada dialecto (na altura o alfabeto turco latinizara-se inserida em uma política global de occidentalização). Uns dez anos despois, a mediados dos anos trinta, suprimiram os alfabetos latinos e foram substituídos por alfabetos com caracteres cirílicos. Isto, acompanhado de numerosos empréstimos do russo, dá a impressão de que a função destas línguas é a de dar simplesmente etapas para os estudantes que terao os exames de ensino superior em russo, Deste jeito, os falantes dos dialectos turcos vincularam-se com o russo, língua principal do país, e serão menos conscientes das suas relações com os vizinhos. não conseguem entendê-los quando a conversa trata sobre temas cultivados: ai e onde se tem que empregar o russo.

    Por fim, vamos a ver o que se passa com o valenciano. Pola sua proximidade e polo facto de ser a língua foránea comum à nossa, este é o caso mais dilucidador da estrutura que queremos esclarecer. Em Valência actuam as falas valencianas, o catalão e o espanhol. As falas valencianas vivem uma situação de diglossia ainda mais acentuada que no nosso caso. Defacto, só o falam o 49,48 % dos valencianos e o relevo generacional está roto. Os partidos governantes até o de agora, PSOE e PP-Unió Valenciana, têm adoptado um programa lingüístico politicamente correcto que em pouco tem ajudado a revitalizar a língua. De resto, politicamente dominam com amplitude os partidos estatais, o que constitui um indicativo, deixando um pequeno resquício a duas formações: a Bloc Nacionalista Valenciano (antes Unió do Poble Valenciano-Bloc Nacionalista) que ainda não alcançou representação parlamentar e Unió Valenciana, folclórica direita regionalista, principal adail do isolacionismo lingüístico e onde se escuda o mais iracundo anti-catalanismo (e consequentemente, espanholismo) do país.

    Em linhas gerais, a direita é isolacionista, espanholista e anti-catalanista e a esquerda segue as teses contrárias. Pois bem, neste caso como nos anteriores, a priori, existem duas possibilidades igualmente válidas: o isolacionismo e o reintegracionismo. Na verdade, o apoio do espanholismo ao valencianismo isolacionista apresenta o mesmo desinteresse que o do russo polo moldavo e as línguas túrquicas da Sibéria meridional. Em Valência esta-se a assistir à criação de uma língua por decreto, desde o mesmo parlamento, com medidas como que o título de catalão não seja homologável com o de valenciano ou apresentar um preito desde a administração e contra a Universidade de Valência por promulgar esta nos seus estatutos que a língua oficial do centro será o catalão. Divide e vencerás que apontou alguém.

    O caso galego é paralelo ao valenciano, e tremendamente similar. No ano 1980 o galego tinha uma normativa reintegracionista elaborada por uma comissão presidida por D. Ricardo Carvalho Calero. Esta normativa foi abolida desde acima e substiuída pola actual, de signo isolacionista. Os representantes e valedores políticos da língua espanhola e de uma Espanha mononacional e monolingüística foram e são os principais sustentadores do isolacionismo lingüístico, isolacionismo que não é o destilado nas principais associações de base galeguistas: Bloque, CIG, Mesa, A nosa terra... Dá-se assim um confronto evidente entre poder e bases.

    Se o que se trata é de conservar a nossa língua, tanto umas teses como as outras seriam válidas em um contexto, uma estrutura, diferente à nossa. Considerar a nossa língua nada no medievo ou no XIX seria uma questão filológica de não mediar o espanhol por meio. A realidade é mui outra. Há que seguir um caminho, ou bem cara o galego-português ou bem para o galego-castelhano. O segundo achamos que é um suicídio residindo no lugar onde residimos. O apoio do centralismo político ao galego hoje oficial e à lei de normalização vigente não é mais do que o abraço do urso. A sua combatitividade contra o reintegracionismo é um sintoma da sua preocupação. O caminho do galego-português é regressar às nossas fontes e fluir com a identidade recuperada. Em última instância, trata-se de se situar à par de variedades e problemáticas como a do flamengo, o quebequês, o valenciano (reintegracionista), o porto-riquenho, o italiano da Suiça ou o alsaciano, ou bem sentir-se equiparado ao asturiano, o provençal, o friulano, belorusso, ou o picardo. No caso primeiro o modelo de regeneração está perto, muito perto e mesmo obteremos auxílio dos nossos irmãos lingüísticos. No segundo ficamos sós. Detrás de cada escolha e de cada sensibilidade existe uma história pessoal mui respeitável. Contudo, é momento de agir. O reintegracionismo, baixo distintas formas: mínimos, máximos ou padrão, é a postura que se está a expandir sem cesar de abaixo para cima, e é questão de tempo a sua assunção polo grosso do galeguismo. A dia de hoje, o isolacionismo só é forte onde, atendendo à estrutura, só poderia ser forte: nas instituições estatais e na subvenção. Este dado deveria por si próprio levantar alguma que outra reflexão.
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