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A rebotica de Rajoy

09:32 31/10/2007

Para dizer a verdade, e a medida que o tempo vai passando, as posicões negacionistas em relação com a mudança climática estão a perder força entre nós.

A certificação de que, quase sem excepções, a comunidade científica considera provado que o ser humano está a alterar gravemente o meio se tem aberto caminho e tem colocado em posição delicada às cada vez mais escassas vozes dissidentes, a miúdo sospeitosas, aliás, de submissão a escuros interesses empresariais. Por todo isso surpreende tanto mais a lamentável saida que, para desesperação dos sus assesores, asumiu dias atrás o máximo responsável do Partido Popular, Mariano Rajoy.

    Não está de mais lembrar que, nos últimos anos, o negacionismo em relação com a mudança climática só parecia manifestar-se na nossa proximidade em lábios de liberais extremos. Detrás dalgumas dessas posições era legítimo adivinhar, isso sim, uma subterrânea consciência no que atinge a algo importante: a visível ineptitude do mercado à hora de enfrentar problemas como o que temos entre mãos. Parecia como se, sabedores da precariedade das soluções que o mercado oferece ao respeito, estes ultraliberais se inclinassem por negar o dato maior e afirmar que a mudança climática é uma superstição mais alimentada pelos nostálgicos da hiperregulação.

    Claro é que, e para não deixar nada no olvido, a consciência, cada vez mais clara, no que diz respeito ao delicado da situação geral contrasta poderosamente com a inanidade das respostas que uns e outros estão a desenvolver. E é que as políticas materialmente abraçadas pelos sucessivos governos espanhois, populares como socialistas, parecem bem pouco estimulantes. Se bem está que critiquemos a Rajoy pelas suas frívolas declarações, cada vez é mais urgente denunciar o escasso compromisso que o governo socialista tem mostrado em relação com a aplicação honrada dum protocolo, o de Kioto, que é pouco mais, por certo, que um limitado remendo para enfrentar problemas graves. Se, por um lado, Espanha está muito longe de satisfacer os requisitos estabelecidos, não precisamente ambiciosos, pelo outro não falta a pressão empresarial para revisar à baixa os critérios estatuidos e, em fim, alguns especulam, também, com o horizonte de adquirir quotas de poluição em mãos até agora dos países mais pobres.  

A estultícia das palavras
A estultícia das palavras de Rajoy e a retórica não acompanhada de factos que mostra o governo espanhol desenvolvem-se --não se esqueça-- num cenário no que a principal voz negacionista durante anos, a do presidente norteamericano, George Bush, parece ter recuado. Não nos enganemos muito, porém, ao respeito. Ainda que é certo que Bush tem anotado a opinião claramente dominante nos círculos científicos, e tem reconhecido que estamos a castigar o meio, o certo é que o sentido geral da sua aposta parece se situar no magma mental que retratava o anúncio dum congresso que apareceu a última primavera num jornal de Madrid: "Oportunidades que oferece a mudança climática". O que Bush parece estudar são as possibilidades que a mudança climática abre para conseguir novos negócios, antes na perspectiva de alentar estes últimos que na de pôr um freio àquela. Assim as coisas, e em virtude dum formidável e transgressor movimento, o presidente estadounidense procura atribuir à iniciativa privada, não a responsabilidade principal do que acontece, senão, pelo contrário, a possibilidade objectiva de que deixe de acontecer.

    Agreguemos que o próprio, e nestas horas idolatrado, Al Gore oferece, nas suas declarações públicas e nos seus escritos, alguma margem para a dúvida. Esquecerei agora que não parece que quando o nosso homem foi vicepresidente de Estados Unidos, com Clinton na cabeça do país, muitas das políticas arbitradas fossem diferentes das que postulou depois o Bush negacionista. Ainda que An inconvenient truth, o livro escrito por Gore tempo atrás, é na maioria das suas páginas uma estimulante crítica dos efeitos das nossas agressões contra o meio natural, não faltam em modo nenhum nos seus capítulos as chiscadelas dirigidas, de novo, à iniciativa privada e às suas virtudes. Bem é verdade que quando, no capítulo final do seu texto, Gore põe mans à tarefa de enunciar o que podemos fazer para enfrentar a mudança climática, ao cabo não tem mais horizonte que reivindicar uma redução nos nossos niveis de consumo, algo que com certeza calha pouco com os princípios que defendem os partidários do mercado e da iniciativa privada. Isso sim, à altura dos tempos que correm, o laureado político estadounidense prefire falar então com a boca pequena.

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Comentarios (7)

OBSERVADOR #1 31/Outubro/2007 OBSERVADOR
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Sim, parecia muito isso de esperar que um candidato à presidência dos EUA fosse minimamente coerente e responsável...

danhauser #2 31/Outubro/2007 danhauser
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http://www.larevolucioninvisib...

laurinha #3 31/Outubro/2007 laurinha
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Alguém com bom senso poode acreditar que a Galiza, Euscadi ou os paises catalaes, formariam parte do estado espanhol se nom funcionara a coaçom e a opresom?
Alguém acredita que numha Galiza livre o espanhol seria de obrigado conhecimento e imposiçom aos galegos e galegas, ... catalaes vascos etc.

dos bosn jeitos e liberalidades dos espanhois e o seu estado, liberenos Deus

xaviersouto #4 31/Outubro/2007 xaviersouto
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O senhor Al Gore é tudo o honesto que se pode ser desde a posição que ele ocupa por razão de nacionalidade e classe, mais ainda tendo exercido como vice-presidente dos EUA.
Ele representa uma ideologia bem ambígua, qual é a do “desenvolvimento sustentável”, engraçado oximoro que muitos ingénuos crêem viável, porventura para não ter que admitir a própria responsabilidade na desfeita. Não pode sê-lo num sistema que precisa da continua ampliação da produção para sobreviver e não cair na crise, nem numa economia que por própria natureza é anárquica na sua organização, nos seus métodos e nos seus propósitos.

ROSALIANO #5 1/Novembro/2007 ROSALIANO
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Ao Sr. Gore acontece-lhe o mesmo que a muitos (quase todos?) os profissionais da política: se são honestos não recebem os apoios necessários para chegar ao poder. E se têm uma responsabilidade política importante não podem ser honestos. Já sei que isto é uma simplificação, não uma regra exacta, mas serve para ter uma ideia.

AGIL #6 3/Novembro/2007 AGIL
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Que razão tens, Rosaliano! Lembro o discurso das armas e das letras, no Quixote, em que um louco (talvez "en un intervalo lúcido") pretende casar o incasável, que é o Direito ou, antes, a justiça e a Força, ou, antes, a violência.
Mas já se sabe (ou deveria bem ser conhecido): É um louco (não apenas tolo) cujas palavras são historiadas por um muçulmano, portanto, mentireiro radical.
Acho que o discurso "ecologista" emanado hoje das diferentes instituições e para-instituições soa ao procurado por dom Quixote no seu das armas e das letras, mas com uma diferença grave: Os discurseantes não enlouqueceram ... ou talvez sim?

OBSERVADOR #7 4/Novembro/2007 OBSERVADOR
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Com efeito, o que lhe vai a Rajoy e os seus é o discurso fantasma, que é aquele que parece "dizer" algo mas só "dá a entender", ou seja, que quando Rajoy acolhe a opinião do seu coirmão, longe de querer negar a mudança climática, está a dizer-nos a todos: coirmanemo-nos em opinião como eu faço com este homem, seja qual for esta opinião. Sede dos meus e não dos outros. E, claro, há quem lhe faz caso e há quem não...

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Carlos taibo

Carlos Taibo

É profesor titular de Ciencia Política e da Administración na Universidade Autónoma de Madrid, onde tamén dirixe o programa de estudios rusos. As súas áreas de especialización son transicións á democracia, Unión Soviética, Rusia e Iugoslavia.