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José Luis Forneiro

Gaiferos de Mormaltán: Cantiga medieval? Romance tradicional?

13:17 06/05/2010

Hai quem diga os mitos serem inerentes à condiçom humana, porém para outras pessoas, como o escritor francês Albert Camus, só os medíocres precisariam deles, Inicialmente, a modernidade, nascida nas Luzes do século XVIII contra o império intelectual da Igreja, e caracterizada pola liberdade de pensamento e polo seu espírito crítico, nom deveria acompanhar quaisquer tipo de mitologias, superstiçons e falsificaçons.

No entanto, no decurso dos últimos séculos pudemos comprovar como algumhas ideologias progressistas surgidas ao calor da modernidade se transformárom em religions secularizadas ou aceitárom acriticamente textos apócrifos. Pensemos na consideraçom por certa esquerda contemporánea do Che Guevara como Jesus Cristo, ou na mitificaçom dos “primitivos” face aos ocidentais que se pode achar, por exemplo, no discurso “Esta Terra é um tesouro” que supostamente proferiu o chefe índio Seattle perante os brancos ianques em 1855, e que na realidade é um texto escrito por um texano chamado Ted Perry em 1972 para um documentário ecologista.

O nacionalismo galego, sobretudo depois da Guerra de 1936, tem-se caracterizado, de maneira geral, por ser progressista, sobretodo se o compararmos com o nacionalismo catalám, e ainda mais, com o basco. Mas este “esquerdismo” (fruto em boa medida do distanciamento secular da Igreja galega polos assuntos do país) nom impediu que o galeguismo criasse os seus próprios mitos ou que adaptasse outros como o culto ao Apóstolo Santiago, como bem indicou Carlos Barros, professor de História Medieval da USC num artigo publicado em 1994: “Mitos de la historiografía galleguista”.  Para Barros o facto de a maioria dos teóricos galeguistas serem católicos praticantes fixo que aceitassem a invençom jacobeia, convertendo o Santiago matamouros espanhol num Santiago galego, europeu e universal.

O poema Gaiferos de Mormaltán, por ser de “assunto jacobeu”, tem sido considerado como o romance por excelência de tradiçom oral galega,, e, assi, neste ano de 2010 voltou a ser incluído em obras sobre o caminho de Santiago ou foi novamente interpretado por um dos mais famosos grupos de música folk galega. É valorado como o romance galego mais precioso porque se considera umha adaptaçom em verso da lenda da morte do duque francês Gulherme X, último duque da Aquitánia, que supostamente morreu no século XII perante o altar da Catedral de Santiago.

No entanto, este poema narrativo nem é medieval nem nunca pertenceu ao saber literário tradicional da Galiza. Trata-se dum texto escrito por Manuel Murguia e a sua falsidade já foi denunciada em 1984 no Catálogo General del Romancero do Seminario Menéndez Pidal (obra imprescindível para o estudo deste género poético da tradiçom oral dos povos de línguas íbero-románicas), e por quem escreve estas linhas na revista Agália (1987), no livro El romancero tradicional de Galicia. una poesía entre dos lenguas (2000) e na ponência apresentada no Congreso Manuel Murguia organizado pola Xunta de Galicia em 2000: “Mais textos para a produção de Murguia em língua galega: o seu romanceiro apócrifo” (2004). Neste último trabalho propunha que 26 supostos romances tradicionais, na realidade compostos por Murguia sem nengumha base na literatura tradicional da Galiza, deviam passar a fazer parte do acervo poético murguiano escrito en língua galega.

Sabemos que o Gaiferos de Mormaltán é um texto falso polas seguintes razons:

a)O estilo: O discurso do romanceiro tradicional caracteriza-se pola sua economia expressiva, polo seu discurso directo, em que predomina o diálogo e as frases justapostas, sendo raras a narraçom, a descriçom e as frases subordinadas. Assi, os verbos denominados dicendi para indicar quem participa no diálogo som alheios a este estilo (Desta maneira falou Gaiferos de Mormaltán), ou as descriçons dos olhos (motivo típico da literatura do Romantismo) som também impróprias do romanceiro tradicional (Ten[…] ollos de doçe mirar, ollos gazos, leonados, verdes com´ auga d´o mar).

b)A modalidade de relato: Os romances tradicionais imitam a vida real para representar de maneira simplificada os sistemas sociais e deste jeito submetê-los à crítica; pretendem reactualizar, colocar no presente, as acçons narradas para dar soluçom ao conflito colocado no relato. o amor entre pessoas de diferentes classes sociais, o adultério, o incesto, o reparto da herança, etc. Esta reactualizaçom diferencia o romanceiro tradicional doutros géneros poéticos narrativos como o romance de cego (com que normalmente se confunde na Galiza) ou o corrido mexicano, géneros que se limitam a contar as histórias como acontecidas no passado. Os romances compostos por Murguia nom passam de ser histórias “antergas”, ambientadas numha Idade Média idealizada cujos protagonistas som nobres, damas e fidalgos de raros nomes como Beiro da Silva, Gelda, Berenguela ou Gaiferos (castelhanismo por Gaifeiros) de Mormaltán, etc. As mençons ao público nom som própias do romanceiro tradicional, senom dos romances difundidos polos cegos (Así morreu, meus señores, Gaiferos de Mormaltán).

c)A língua: O romanceiro tradicional galego conservou o castelhanismo deste género nascido na Castela medieval e apenas incorporou a língua autóctone da Galiza. Nom podia ser doutro modo, dado que o galego iniciou a sua decadência como língua oficial e literária já na mesma Idade Média e as classes populares do país nom tivérom contacto com textos “normais” na sua língua até só hai umhas décadas, daí serem raros os temas expressados sempre em galego dentro do conjunto dos romances da Galiza. O galeguismo lingüístico total do Gaiferos seria mais um elemento que denuncaria a sua inautenticidade.

Em todo o mundo ocidental se produzírom manipulaçons e falsificaçons da tradiçom oral, nomeadamente no século XIX, e com o tempo fôrom denunciadas e assumidas polos respectivas sociedades. Porém, na Galiza, a visom predominante (salvo algumha honrosa excepçom) do romanceiro, e em geral de toda a literatura de tradiçom oral, parece mais própria dos tempos prévios à invençom dos caminhos-de-ferro que a dum país do século XXI.

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Forneiro

José Luís Forneiro é professor titular de Língua Portuguesa na USC e é autor dos livros El romancero tradicional de Galicia: una poesía entre dos lenguas (2000) e Allá em riba un rey tinha una filha. Galego e castelhano no romanceiro da Galiza (2004). Forma parte do proxecto Ronsel, paa a posta en valor do Patrimonio Inmaterial Galego. »



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