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Concha Rousia

Morrer ou rebentar

10:30 06/10/2007

O ser humano por vezes, muitas vezes, é incapaz de usar a lógica e se mete em sarilhos dos que depois não vê por onde sair... Como as cobras, que quando entram no buraco já não podem andar para atrás por mor das escamas que as recobrem todo ao longo e ao largo do seu corpo, e que não lhes permitem andar de ceia-cú para rectificar qualquer cousa que seja que não vai bem.

Pois bom, esta situação na que por vezes nos vemos imersos os humanos é parecida, de jeito que nós pensamos que temos que seguir para diante como quer que seja. Talvez no nosso caso, se me acaba de ocorrer agora a mim, isto tenha algo a ver com a insistência de alguns em dizer que nós temos duas línguas; mas não é certo, só temos uma, duas têm as cobras, que também não podem andar ao pra trás, mas nós podemos... embora esqueçamos essa habilidade muito frequentemente.

Uma dessas situações deu-se-me a mim o outro dia quando dava uma olhadela a um inquérito, num desses jornais impressos na Galiza, no que se perguntava se se devia dedicar mais tempo ao Galego que ao Inglês no horário escolar. Em princípio a pergunta faz pôr a um os pêlos todos do corpo de ponta, porque já abonda de foçar e foçar na contra da nossa língua, mesmo parece que a alguns porcos não há quem os ferre... Que saudade dos tempos em que os ferreiros faziam aqueles aramios para colocar nos focinhos dos bácoros para que depois de grandes não pudessem foçar, que eram capazes até de botar abaixo as paredes da casa; sim, talvez esses tempos são passados e vá que a nós nos iria fazer jeito agora por aqui um bom ferreiro! Ou uma dúzia... porque o que é porcos não faltam. Enfim, voltando ao inquérito, a pergunta é ofensiva, mas se se repara bem, e se segunda a ler, um pode concluir, acertadamente, que depende... Depende do lugar (porque não se especifica na pergunta do tal inquérito); se estamos a falar de Castela ou mesmo de Andaluzia..., pois não, não me parece lógico ou justo que nesses lugares tenham mais horas de Galego que de Inglês, ...ou talvez sim!? Falar de justiça num estado como o Espanhol também não tem lógica.

Ora nós devemos estar precavidos contra os media espanhóis e espanholizantes, e alguns jornais são ambas cousas.
A mim veio-se-me à cabeça aquelas perguntas que de pequenos nós faziam nossos pais, e que nossas mães nos ajudavam a responder...

E logo tu que queres melhor: morrer ou rebentar?
Pois eu rebentar....
e a mãe: - burrinha, se rebentas também morres... diz-lhe que nenhuma das duas, que tu queres viver...
Sim, a pergunta desse inquérito é desse estilo... Respondas o que responderes estás a falar de morte, morte para o Galego, é claro, porque sobre Castelhano não se pergunta cousa nenhuma.

Logo a pergunta que eles em realidade estão a fazer é outra, algo como:
Queres que matemos o Galego de golpe ou os poucos? A menina pequena iria dizer. - Aos poucos que assim ainda vive... Que pena que não esteja já sua mãe para lhe ensinar... Ou talvez a pergunta não é tanto uma pergunta, e o que se pretende é afirmar que se pode pôr em questionamento a nossa língua... Havia era que dar-lhes com a pergunta nas ventas, é dizer-lhes que não queremos ser questionados com esse descaro acerca de algo que está no cerne da nossa essência, da nossa identidade; e ainda para mais perguntados por um jornal espanhol, e escrito em Castelhano; ...vai lá perguntar no teu contexto lógico, e deixa-nos viver. Acaso A Nossa Terra vai fazer inquéritos a Burgos por exemplo, para ver se a gente quer mais Castelhano do que Inglês... Pois é claro que não, logo então a nós por que lei divina nos têm que vir lá com essas perguntas sem lógica nem sentido nenhum da justiça? Mágoa que se nos deixara de treinar para desconfiar das intenções das perguntas dos forasteiros (tanto tem que sejam pessoas ou jornais, e também tanto tem que morem em terra alheia como na própria)

Como aquela:
Quantos cestos de terra terá O Larouco? (essa enorme montanha que leva o nome do deus celta, e que agora tem ganho muita fama pola prática que lá se faz com parapente, sempre atirando-se para o lado galego, e por vezes têm a gente chegado até Alhariz)
E o tio Abelardo, com uma récua de crianças, todas as do lugar, à sua volta, respondia com muita tranquilidade ao forasteiro que sempre vai de listo:
Depende de como seja o cesto, se o cesto é mais grande do que é O Larouco ainda não o enche.

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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