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Concha Rousia

Os únicos galegos e galegas livres

11:00 29/07/2009

Vinte e cinco de Julho, sempre !!
Como cada ano nascemos ao dia na Alameda de Compostela, chegados de todos os recantos do país; o meu caminho passara este ano polo Campus para deixar algumas cousas na banca que com alguns amigos e amigas iria atender na parte da tarde. Andei entre as manifestações, o que me permitiu contemplar várias paisagens...

Destaca na lembrança uma negra, que veio logo a coincidir com outra gémea sua depois à noite. Foi no Franco, voltando para o Campus, a entrada da rua que sobe para o Toural estava cortada por uma ringleira de escudos quadrados e negros; policiais de quadrados corpos e faces rectangulares a ferirem os olhos do que os mirar. As insígnias da sua pátria bordadas nos escuros uniformes... As escopetas a apontarem a qualquer parte; as ásperas vozes, altivas, a dispararem ordens ao ar para impedir o passo das pessoas... Um arrepio percorreu o meu corpo, adivinhei a dor nas costelas de compatriotas meus em mãos desta policia espanhola que hoje roubava de nós as nossas ruas. Achei a imagem altamente simbólica dos tempos que correm na política da Junta da Galiza.
 
Do Franco saía um homem embebedado de álcool, anestesia de escolha para alguns acalmarem a dor deste etnocídio insidioso e interminável... ia movendo uma bandeira de estrela e berrando baixinho: 'Putos espanhóis' 'putos espanhóis'..., também ele me doeu... Decidi seguir a caminho do Campus e o Festigal; mas querer queria ir contra os escudos... e berrar bem alto: ‘Hoje, polo menos hoje, a minha pátria é minha!’ Mas calei, da minha mão ia a minha filha que não tirava os olhos das, segundo as suas próprias palavras, enormes escopetas; já no Campus todo era país... as cores, a música, a paisagem humana, e gastronómica... polvo, empadas, carne a grelha, alguém cozinhara num robô desses uma tortilha quadrada, interessante forma, acorde com os tempos...

Às quatro abrimos pontualmente a banca da Associação Pró-AGLP, bonitinha até polas flores cor laranja e o cheirinho do café... A nosso lado a banca mais heavy de toda a festa, a de AGAL; foi mesmo bom ficar juntos para celebrar. A tarde continuou-se com a passagem pola galeria das letras e a das ideias. O dia vinte e quatro foram as palavras de Ana Miranda, de Oriol Junqueras da Catalunya e de Renato Soeiro do Bloco de Esquerdas... Vozes de esperança para a nossa esquerda europeia. A seguir deles tive eu o privilegio de falar sobre feminismo, direitos sexuais e reprodutivos, junto com Olaia Fernández, deputada, e Carmela Garrido, da Marcha Mundial das Mulheres. Eu falei, entre outras cousas, das consequências psicológicas do aborto, ou até deveria dizer da ausência de consequências psicológicas quando a decisão é livremente tomada pola mulher.

Na galeria das letras não cabia mais uma pessoa, a sala ficou atestada para a apresentação do livro 'Sobre o racismo linguístico' edição coordenada por Pilar Garcia Negro, primeira em falar, com a sua inesgotável força, numa linguagem, como sempre, muito cuidada. Das suas palavras sobressai a denúncia do que o auto-odio leva feito connosco; falou da adaptação que dos nomes galegos se leva feito... Falou no caso da deturpação do sobrenome de um companheiro-professor levada a cabo por um antepassado deste emigrado no sul da Espanha, que converteu 'Candal' em 'Candil' para parecer mas aceitável para o castelhano... Porque seica 'Candal' não soava nada Espanhol. E eu pensei, acaso não será que para o galego se escolheu a ortografia castelhana em lugar da nossa ortografia histórica pola mesma razão? para que se pareça a algo espanhol? Deixo aqui estas reflexões que não pude, por falta de tempo, comentar com Pilar, mulher guerreira que admiro e da que sigo a aprender.

A seguir dela Xosé Ramón Freixeiro Mato fez um interessante e demorado percurso pola história, pola nossa história, mesmo que triste, nossa, e grande, e por contar, por escrever... E por último falou Luís Villares Naveira, o juiz de Primeira Instancia e Instrução da Fonsagrada, o juiz que eu escolheria se na Galiza se pudessem escolher essas cousas, e houvesse justiça de seu...

Das palavras, potentes e atrevidas, deste jovem juiz, quero salientar algumas que foram o motivo principal para eu escrever esta crónica; palavras que falam da ideia de ‘liberdade’. Liberdade para escolher em que língua falar os galegos e galegas. O primeiro é a afirmação de que para ser livres na hora de fazer essa escolha temos que ter competência nas duas línguas hoje oficiais na Galiza, ou então a escolha foi feita por nós. A Constituição espanhola insta aos poderes públicos para fazerem o que for necessário para que os indivíduos da Galiza tenham capacidade para poder escolher se falar em galego ou em castelhano; é por isso que desde o Estado não podem arremeter contra a Lei de imersão linguística da Catalunya, eles cumprem um mandado constitucional; porque com efeito, não podemos ser livres de escolher entre uma e a outra língua se não dominamos as duas, pois um não pode ser livre para escolher aquilo que não está a seu alcance... As pessoas que não se saibam exprimir em galego, como já é o caso de muitas das nossas crianças e jovens, não são livres para escolherem, eles terão que se limitar a falar o castelhano que sabem... Ficando apenas livres para escolher em que falar os falantes da língua própria da Galiza, porque estes dominam sempre as duas línguas.

Ser ignorantes da língua própria da Galiza não é portanto um direito constitucional para os galegos, nem também não o é, hoje, ser ignorantes da língua de Castela. Deduzimos então com certeza, que apenas os galego-falantes somos livres de escolher em que língua falar porque todos sabemos as duas, quanto que dos castelhano-falantes não se pode já dizer o mesmo. Nós somos então os únicos livres para poder escolher... quem lho iria dizer aos fala-barato de ‘galicia bilingue’... pois é senhora Lago, pois é... O que vocês estão a pedir, mesmo talvez sem se aperceberem, é o direito a escolherem para seus filhos serem ignorantes da língua própria da Galiza, mas livres, não.

Na oratória do Luís Villares, o juiz da Fonsagrada do que desde já confesso ser fã, encontrei uma força que julgava perdida, até me fez pensar em oradores de outros tempos; achei também, e peço me permita assim o dizer, a dose justa de humildade que eu acho imprescindível para que um homem possa chegar a ser grande; para ele os meus sinceros parabéns por se atrever a abrir caminhos em terrenos pouco favoráveis.

E como o tempo não dá para eu poder narrar tudo o que se passou na banca da Pró-Academia, simplesmente envio um muito obrigada para todo o mundo que colaborou connosco neste nosso primeiro ano no Festigal. Mesmo que nosso espaço fosse um recanto um bocado afastado da parte central, metáfora de nós próprios, era um espaço digno...

Já em casa, depois de ouvir as nossas divas, Ugia Pedreira e Guadi Galego, na TV que alguém ligara, vi o esperpento que teve lugar ao outro lado da catedral. Frijol, disfarçado de pinguim, rodeado de militares a marcharem pola praça, seguidos por  ringleiras de curânganos com vestidos brancos e vermelhos, num Obradoiro no que havia uns quantos senhoritângos que eu nem conheço nem reconheço...

Desliguei a TV, mandei pró nabo aquela imagem quadrada, e encaminhei-me para a cama, com a certeza de que o pesadelo seguiria...

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Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado. »



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